Opinião

Fraco governo faz fraca a forte gente

António Capela


Em 2020, a pandemia assolou a sociedade portuguesa. Porém, já antes, outra doença, mais subtil, mais profunda e não menos perigosa, minava o nosso país. Podemos baptizar esta doença, surgida em 2016, de anemia social, ou anemia económica, ou anemia política.

Se, para a covid-19, os portugueses demonstraram a maior das pressas em reagir, a maior das eficiências em serem vacinados, quanto à anemia social, estamos estruturalmente remediados, estranhamente acomodados... O factor mais preocupante é a estagnação económica, que se expressa sobretudo nos baixos salários. É certo que o Governo socialista aumentou o salário mínimo – mas não é suficiente aumentar o salário mínimo, é preciso aumentar todos os salários. O salário mediano em Portugal, em 2018, era de apenas 933 euros. Países como a Irlanda e a Bélgica têm valores superiores ao triplo do nosso salário mediano. A mediana de Espanha é de 1700 euros, praticamente o dobro da nossa. Tem mesmo de ser assim?

O socialismo habituou-nos a medir por baixo, a querer pouco, a esperar pouco – pior, a contentar-nos com pouco. Temos um Governo que só pensa em mínimos – mais grave, temos um Governo que só nos faz pensar em mínimos. Estamos remediados, perdemos o horizonte.

Como se não bastasse, este entorpecimento não está exclusivamente na resignação com fraquíssimos níveis de crescimento económico, está também na indiferença com a mediocridade e degeneração dos serviços públicos. Veja-se, a título de exemplo, a saúde: se, no passado, a demissão das administrações ou de equipas de serviços hospitalares constituía um escândalo, hoje, as demissões em bloco tornaram-se uma banalidade, merecem uma nota de rodapé nos noticiários, breves segundos de tempo de antena. A lista é extensa: Santa Maria, São José, São João, Vila Franca, Braga e Setúbal. E qual é a surpresa? Quantos mais hospitais têm graves problemas, mais banal e insignificante parece a situação. Um círculo vicioso toma lugar. A degradação gera conformidade, que por sua vez potencia mais degradação. Há um absoluto conformismo com a deterioração – mesmo quando se trata de uma área tão vital e imprescindível como a saúde.

A incompetência governativa, a nula vontade reformista e a tibieza reinante no espírito dos portugueses têm um principal culpado: António Costa. Seis anos de taxas de juro historicamente baixas, seis anos que foram uma ocasião única para crescer, mas seis anos em que perdemos terreno, em que fomos ultrapassados por cinco países europeus, atirando Portugal para a cauda da Europa. Pior que estes maus resultados é o sentimento de inevitabilidade, de resignação e de desistência que tomou conta dos portugueses – sentimentos que se traduzem nas sondagens, mas mais particularmente na abstenção. Nas últimas legislativas, 45% dos eleitores consideraram que não valia a pena votar.

Se a culpa é, em primeiro lugar, de António Costa e da incapacidade socialista, podemos em segundo lugar culpar a oposição e, em particular, o seu líder – Rui Rio. A estratégia de aproximação ao Partido Socialista e o afrouxamento da oposição contribuíram para a sonolência geral. Se António Costa soube adormecer o povo português com as suas canções de embalar, o silêncio de Rio contribuiu para o ambiente cinzento, sem esperança, mas também sem desespero – uma verdadeira tragédia sem alarme.

A candidatura de Paulo Rangel é, por isso, uma lufada de ar fresco. É uma voz de denúncia, de realismo, que se levanta contra a anemia nacional. É, finalmente, a apresentação de uma alternativa que mostra que é possível fazer diferente, fazer melhor. Trata-se do despertar da esperança, da abertura de um novo horizonte que demonstra que não estamos condenados a viver das esmolas de Bruxelas. Portugal pode ser um país rico, com salários de nível europeu, com serviços públicos dignos. Sim, podemos.

Costa fingiu que virou a página da austeridade e deixou-nos com a página da estagnação. Rangel é a solução para virarmos definitivamente a página da estagnação e entrarmos num novo capítulo – o capítulo das reformas, do crescimento, do ganho de rendimentos para as famílias.

Quando Camões, n’“Os Lusíadas”, escreveu que “Fraco rei faz fraca a forte gente”, criticava D. Fernando – político fraco, sem carisma e sem estratégia que também adormeceu o bom espírito português. A verdade é que da crise de 1383 surgiram grandes figuras como D. João I e São Nuno de Santa Maria e, depois, a Ínclita Geração, que conduziria Portugal às maiores glórias da sua história. Talvez consigamos ter, depois da longa noite socialista, novos tempos em Portugal.

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