Opinião

Fortes com os fracos, fracos com os fortes

Eduardo Avides Moreira


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Este dificílimo e complexo tempo de pandemia coloca-nos a todos perante cenários nunca antes pensados. Vivemos uma época que tudo mudou.

Infelizmente, nesta conjuntura e neste contexto de crise de saúde pública, têm sido tomadas decisões extremamente difíceis, que nós, enquanto cidadãos, temos forçosamente de aceitar. No entanto, há medidas que não são compreensíveis e quando isso acontece há que ter a humildade para reconhecer, dar um passo atrás e retificar.

Cá, no nosso país, já nos habituaram a algumas coisas. Primeiro, somos fortes com os fracos. O Governo, o IPDJ e a DGS têm prejudicado imenso os Clubes e Associações Desportivas. Poderíamos mesmo dizer que estão a atentar contra a vida de muitas instituições.

A verdade é que sofremos de uma infelicidade transversal a todos os clubes, mas foram os clubes e associações de menor dimensão (não são pequenos dado que muitas vezes até são grandes, no amor, na paixão) que sentiram o peso esmagador das consequências de que a pandemia se fez acompanhar.

Falamos de uma realidade que nos atinge há mais de um ano. Com as competições não profissionais encerradas e agora retomadas, mas à porta fechada, os clubes atravessam condições insustentáveis.

Sou da opinião de que o futebol não faz sentido sem público. As medidas tomadas pelo Governo foram imprescindíveis no período mais delicado que vivemos, durante o Estado de Emergência, mas parece-me que já reunimos as condições necessárias para que possamos, aos poucos, regressar à normalidade e abrir portas aos nossos adeptos. Afinal, é deles que estes clubes vivem.

O cenário com que lidamos, atualmente, levanta-me algumas inquietações. Por um lado, enquanto presidente de um clube que se vê sem o apoio dos seus sócios e adeptos, que precisam de viver o clube, de ver jogos e frequentar as suas instalações, porque só assim é que os clubes se mantêm vivos. São eles que, através dos bilhetes, das quotas e do consumo no interior dos recintos, permitem que estas instituições desportivas subsistam.

Por outro lado, mas não menos importante, surge-me também a preocupação enquanto pai. Segundo os registos da Federação Portuguesa de Futebol, estavam inscritos 250 mil atletas de formação na temporada 2019/2020. 250 mil atletas que estiveram parados ao longo de todo este tempo. Agora, com a retoma da formação das camadas jovens, na qual estão inscritos cerca de 47 mil atletas (menos 150 mil do que na temporada anterior) é essencial que as novas gerações de jogadores sejam acompanhadas de perto pelos pais, que devem estar estreitamente envolvidos na tarefa de os moldar e apoiar. Mais de 90 mil pais que estão, por enquanto, impossibilitados de seguir os filhos devido às restrições de acesso aos espaços.

É triste e lamentável que haja tanto sofrimento e que tudo “assobie” para o ar. Aliás, como aconteceu recentemente na festa de comemoração do título na capital para os lados de Alvalade. Incoerências que tanto têm prejudicado a vida de muita gente.

Esta semana tivemos mais um caso paradoxal. Eis que tivemos uma final da Champions League, novamente em Portugal, na cidade do Porto. Um jogo dos campeonatos distritais com 100 ou 200 pessoas não pode ter público, já a UEFA pode organizar uma prova com assistência, impondo milhares de espectadores, com as imagens que podemos assistir. Sem dúvida, uma incoerência de quem não tem sensibilidade, de quem não tem capacidade para governar.

Triste sina a nossa, fortes com os fracos e fracos com os fortes mesmo quando isso implica uma incoerência no mínimo condenável e reprovável, violando um dos princípios básicos de qualquer Constituição. Neste país para se ser responsabilizado ou mesmo condenado é necessário ter muito azar. O que paira no ar é um sentimento de impunidade, de não responsabilização que não é minimamente aceitável e tolerável.

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