Opinião

Fora de prazo

Eduardo Baptista Correia


O livro publicado por Carlos Costa constitui, na minha opinião, uma boa oportunidade para pensarmos a forma como em Portugal se faz política.

Numa fase em que assistimos a um conjunto variado de casos em que as forças políticas responsáveis deveriam inspirar-se para propor reformas nos modelos de funcionamento da justiça, de modo a garantir o pleno funcionamento humanista da democracia e do Estado de direito; numa fase em que a oposição social-democrata tem a oportunidade de demonstrar, de forma factual, a falta de competência generalizada que afecta os membros do actual governo e que, de forma muito intensa, prejudica e atrasa o país; numa fase em que os sociais-democratas constituem uma das últimas esperanças de removermos a política da promessa constantemente adiada que caracteriza o governo socialista, assistimos, no lugar de um plano concreto de reforma do modelo de funcionamento da sociedade portuguesa, à tentação de cair na crítica superficial de estilo maledicente à volta de um livro cuja veracidade declarativa será sempre posta em causa e cujo prazo de validade dos acontecimentos está, efectivamente, ultrapassado.

Esta rota não oferece a credibilidade necessária ao apoio de uma solução alternativa agregadora e vencedora. Considero que Carlos Costa prestou um mau serviço à nação ao querer chamar a si, da forma como o fez, o epicentro da oposição e crítica ao governo socialista. A função de governador do Banco Central obriga a uma disciplina de independência e recato da política que, em minha opinião, não se esgota com o prazo de validade da função.

Pessoalmente, e desde que enquadrado com a legalidade, não vejo como problema maior que o chefe do Executivo chame a atenção das entidades reguladoras para a forma como a diplomacia na relação com entidades externas deve ser conduzida. Aceito que se entenda de forma diferente e que se interprete como o tipo de ingerência ou pressão inadequada. Carlos Costa está no direito de considerar esse tipo de influência uma ingerência desadequada. Teria o meu apoio e respeito se as chamadas de atenção para pressões, que legitimamente considerasse desadequadas, fossem feitas no tempo próprio e pelos meios adequados. A isso chama-se coragem, frontalidade e firmeza de carácter. Vir fazê-lo depois da sua saída do cargo coloca a veracidade das declarações em causa e constitui um sinal de falta de frontalidade no tempo próprio dos acontecimentos. Carlos Costa tem um percurso profissional que merece respeito, mas deveria ter a maturidade suficiente para evitar colocar-se na situação de fragilidade em que se colocou.

Neste contexto, não considero boa notícia a forma como um conjunto de figuras de proa do Partido Social Democrata se juntou à volta do lançamento do livro “O Governador”. Estranho e desaprovo a atitude de um conjunto de responsáveis sociais-democratas que, atraídos pela vontade impiedosa de fragilizar o Partido Socialista, se aproveitaram das revelações de Carlos Costa para as transformarem em verdades supremas e, com elas, marcarem o discurso de oposição.

O país necessita de um plano estratégico de longo prazo para que os agentes socioeconómicos se orientem na formulação de estratégias e respectiva operação. O debate mordaz na vulgaridade do quotidiano alimenta a chicana e atrasa o plano e as decisões. É necessário que o PSD não caia neste tipo de armadilha.