Opinião

“... Fome, peste e guerra...”

João Carvalho da Silva


Nos últimos quinze anos, temos vivido, uma sucessão de acontecimentos que justificam que olhemos para o futuro com alguma, ou muita, apreensão!

O primeiro episódio desses acontecimentos começou em 2007–2008 com uma crise financeira internacional que se precipitou com a falência do insuspeito e todo-poderoso banco de investimento norte-americano Lehman Brothers.

Portugal procurou resistir como pôde, mas a sua pouca solidez impôs a necessidade de solicitar ajuda financeira internacional, em abril de 2011. A tristemente famosa Troika!

Troika é a designação atribuída à equipa composta pelo Fundo Monetário Internacional, Banco Central Europeu e Comissão Europeia. É, portanto, um comité composto pelos três membros acima descriminados e que acederam a emprestar a Portugal 76,4 mil milhões de euros, salvando-nos assim da banca rota, ou seja, a falência do nosso país!

Mas os empréstimos têm de ser pagos e as exigências do credor têm de ser ouvidas e cumpridas. Dessa forma, ao mesmo tempo que o Estado perdeu autonomia no poder de decisão, a sociedade foi mobilizada para pagar a dívida! A ferramenta utilizada foi, obviamente, os impostos e o aumento da carga tributária rapidamente se fez sentir, principalmente sobre a classe média, sem dúvida os mais sacrificados e que nunca mais voltaram a recuperar plenamente o poder de compra perdido.

Estava Portugal a começar a sentir alguma normalização e recuperação dos índices existentes na pré-Troika e surge um nome novo no vocabulário português: Covid!

De repente, quase sem tempo para reagir, um vírus, que parecia tão distante, entra na Europa e invade todos os países. A globalização, com o seu ritmo e velocidade alucinantes, faz de qualquer problema local um potencial problema mundial. E pela segunda vez consecutiva Portugal aprendeu com a realidade!

Com algumas dificuldades iniciais, com a necessária adaptação das autoridades, com o trabalho impecável das forças armadas, a dedicação do pessoal médico e auxiliar, bombeiros, forças policiais, etc, etc, e o comportamento exemplar da generalidade da população, o pior passou, chegou a vacina e a vida pode recuperar o seu ritmo. Mas, pelo caminho, muitos empregos se perderam, empresas e negócios fecharam e o nosso Estado gastou mais do que podia!

Segundo números da Direção-Geral do Orçamento (DGO), a Covid-19 custou ao Estado português 7,74 mil milhões de euros só em 2021!

Percebem a enormidade destes valores logo a seguir à Troika?!

Pois é, mas, como sabem, os nossos problemas não terminaram aqui! Estávamos ainda a fazer as contas a quantas vacinas teríamos de tomar por ano e a Rússia de Putin inicia uma aventura militar expansionista na porta de entrada da Europa. Invade a Ucrânia, provoca a imediata reação da Europa e dos EUA em apoio à Ucrânia e, neste momento, sem podermos adivinhar como tudo isto irá terminar, o que sabemos é que a ajuda humanitária e militar da Comunidade Europeia, dos EUA e seus aliados, já representa muitas dezenas de milhares de milhões de euros! E o pior ainda está para vir! Se a guerra terminasse hoje, mais de quinhentos mil milhões de euros seriam necessários para recuperar a Ucrânia!

Que futuro espera então Portugal? Se para outros países europeus esta sucessão de crises representa um enorme problema a ser ultrapassado, para nós é um enorme problema a somar a outros problemas!

Somos um país com fragilidades não provocadas apenas pela má sorte, mas também por problemas estruturais e por opções estratégicas erradas. Estas crises conjunturais não fazem mais do que piorar o que já estava mau!

Muita coisa está em risco num futuro próximo e parece que poucas pessoas se incomodam com isso!

O que será das pensões de reforma, perante esta sucessão de acontecimentos caríssimos, com uma pressão enorme sobre a segurança social, a gastar muito mais do que seria previsto e a receber menos, com uma economia nacional e mundial que não tem oportunidade de normalizar?!

A idade de reforma tenderá, assim, a ser cada vez mais tardia, na tentativa de impedir a falência de segurança social, mas esta medida tem o efeito negativo de adiar a libertação de postos de trabalho para as gerações mais novas. E estas têm, cada vez mais, empregos precários, a curto prazo e baixos rendimentos.

No entanto, as grandes fortunas, num fenómeno não apenas nacional, são cada vez maiores, mas as despesas de todas as calamidades aqui referenciadas são invariavelmente suportadas por uma classe média cada vez mais esmagada.

A classe média é o motor do consumo e desenvolvimento interno de qualquer sociedade desenvolvida. Pois, a nossa classe média está a diminuir, com o salário médio cada vez mais parecido com o salário mínimo! Somos, assim, uma sociedade cada vez mais afastada da média europeia!

Num esforço titânico, a classe média portuguesa tenta manter-se à tona, tenta manter alguns hábitos de consumo, comprar o carro, pagar a casa, ir a um restaurante, passar umas férias no Alentejo ou Algarve, no Norte ou nas ilhas, tenta manter os filhos a estudar e permitir uma formação no ensino superior...

Mas como será daqui para a frente, após Troikas, “Covides” e guerras na Europa?

O que será da classe média se, como é o costume Português, for ela a pagar quase toda a fatura disto tudo?

E quanto dinheiro continuará, entretanto, o país, a perder, com a corrupção instalada? E com a fuga ao fisco? E com a lentidão da justiça?

E, porque não se aumenta a tributação, sobre as grandes fortunas, pelo menos nestas situações de emergência?

E, porque não se reduzem as pensões de reforma absurdamente principescas que muitos auferem sem qualquer justificação plausível?

Entre tantos outros problemas por resolver, a verdade é que a classe média é que paga!

O que será da hotelaria, da restauração, do turismo, da habitação, da educação, do futuro enfim, se a classe média definhar até à morte?

E as novas gerações o que poderão estudar, e o nosso país, sem elas bem preparadas, o que se poderá desenvolver

Quem poderá estudar, em que condições e com que qualidade, para poder competir, no mercado de trabalho, com os colegas da restante Europa? Que pais lhes poderão pagar esses estudos? E quem ganhará o suficiente para poder pagar as reformas aos pais? Que classe social? Quantos contribuintes?

E o que comerão as nossas novas gerações, com a política agrícola, florestal e de pescas, desastrosa que temos mantido? Tudo estrangeiro? E a que preço? Com que dinheiro?

E a política energética? E as alterações climáticas? Estamos a preparar-nos para enfrentar todas estas adversidades que se inter-relacionam a caminho da tempestade perfeita?

Temos muito que corrigir neste futuro próximo. O tempo começa a escassear, por nós e pelos filhos e netos!

E, os nossos governantes que não se esqueçam do que a história ensina; quanto maiores as desigualdades, maior a probabilidade dos conflitos eclodirem!

Sim, teremos de conseguir ultrapassar todas estas crises, oferecendo dignidade ao salário mínimo e não roubando dignidade ao salário médio, para que o futuro dos jovens de Portugal não seja mais uma sucessão de... fome, peste e guerra...

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