Opinião

Fidelidades

João Maria Jonet


Se já me leram alguma vez neste espaço perceberam que a polarização me fascina. A cada semana que vemos nascer novos peritos em conflitos internacionais, vemos também traçarem-se as mesmas linhas de sempre.

Quando surgiu o primeiro vídeo de protestos em Cuba, houve uma erupção de especialistas no Caribe, relativizando ditaduras ou defendendo embargos com a mesma veemência com que defendem o que deve ser o pedido do almoço.

É óbvio que a manutenção do embargo não tem nada de racional, sendo explicada apenas pela tentativa de não enfurecer eleitores importantes num estado decisivo (cubanos na Flórida).

Em termos de política externa é um tiro no pé, que só serve para dar a uma ditadura repressiva um inimigo externo para se eternizar no poder. É por isso que todos os países, menos os EUA e um ou outro aventureiro, são contra a política.

Para além da questão do embargo, em que Obama tomou uma posição corajosa que infelizmente foi abandonada por Trump e que Biden não tem força política nem rasgo para recuperar, também a natureza do regime parece merecer debate.

A revolução vai-se esbatendo cada vez mais em Cuba, com um período de abertura que já vinha da década passada a foi acelerado pelo impacto da pandemia. Esta Perestroika em câmara lenta será também uma das responsáveis destes protestos, mas daí a entrar em equiparações entre democracia liberal e popular vai um bocadinho. Vai talvez uma viagem no tempo, até aos debates que contrastavam os modelos nos salões de Paris dos anos 50, antes de se saber o real impacto de Estaline.

Escreve segundo as regras do acordo ortográfico de 1990