Opinião

Fantasias

Luís Naves


Ainda estará para nascer o jornal em que na primeira página, em manchete, vai constar o seguinte título: “Hoje não aconteceu nada.” Ligamos a televisão ou a rádio e podemos esperar sentados que alguém nos diga: “Neste momento não temos notícias.” Parece que as novidades são como a respiração: elas nunca acabam, a ponto de não sabermos se os jornais são feitos devido à existência de noticiário ou se é ao contrário, as notícias existem por haver jornais.

Também estará para nascer a publicação interessada em noticiar o fim do mundo: “Planeta Terra acaba hoje”, título que convidará o leitor a poupar uns euros, pois, se acaba hoje, então para quê comprar o jornal para ler os pormenores? A boa técnica diz que o peixe tem de render e há um bom exemplo no cinema.

Estas reflexões mais ou menos parvas resultam de ter visto na Netflix um filme clássico inglês dos anos 60, “O Dia em que a Terra Ardeu”, sobre uma crise climática imaginária. A explosão simultânea de bombas atómicas experimentais provocava uma alteração no eixo de rotação, na órbita e no clima do planeta, tudo contado por jornalistas de um diário britânico que, tendo nas mãos a história das suas carreiras, continuavam a fazer reportagem com tranquilidade e publicavam o diário, abdicando das tarefas da sobrevivência.

Num detalhe delicioso, via-se uma manchete do dia seguinte: “Climate change”, que hoje seria uma banalidade. A redacção do jornal era anterior à digitalização, muito semelhante às que ainda existiam nos diários portugueses em meados dos anos 80, com enormes máquinas de escrever, repórteres irreverentes e opinativos (quase todos homens e ligeiramente alcoólicos), arquivos melhores do que a internet, elevadores avariados, prosas longas (medidas em palavras) e governos ainda capazes de guardar segredos importantes, tais como “planeta saiu da órbita”.

Que interesse podem ter estas velharias? Muito, sem dúvida. A ideia das alterações climáticas e do extremo calor dá que pensar, a recordar ao espectador contemporâneo que a frenética imaginação humana consegue, muitas vezes, adivinhar pedaços do futuro. Sem imitar a realidade, e de formas torcidas, essas fantasias de outrora lá vão dando ao mesmo resultado.

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