Opinião

Falemos de Raquel Varela. Ou não.

João Villalobos


Tinha decidido escrever esta semana sobre a Doutora ou Professora ou Professora Doutora Raquel Varela. Mas, pensando um pouco melhor na qualidade de vida que faço tenções de continuar a ter, achei que o mais indicado para garantir que ainda terei netos seria falar da Academia. Ou seja, das universidades e assim.

(Aqui chegados, quem disser de si para si “Mas quem raio é a Raquel Varela?!” é favor passar pela contabilidade ou pelo Google).

No tempo de Sócrates (o primeiro de seu nome) tudo corria bem. Um tipo falava - habitualmente era Sócrates - e se dissesse coisas com sentido os atenienses faziam o favor de o ouvir. Caso contrário, os livros não descrevem o que sucedia. Mas imagino que virassem simplesmente as costas enquanto faziam um sonoro ‘pfffff’ antes de se dirigirem à tasca mais próxima para beber uns pénaltis.

Depois veio o Platão. E Platão fundou uma Academia. E tudo borregou algures a partir daí, no século IV, ou V, ou VI antes de Cristo. Não é relevante, não sou académico.

Basicamente, o mestre criou um discípulo que decidiu fazer guito criando uma escola. E, ao criar uma escola, definiu hierarquias. Nem todos os pupilos ficaram imortalizados, nem todos os sofistas eram aquilo que deles se diz. Mas o que importa é que a coisa pegou e já na altura se pagavam propinas.

(Salto quântico)

O professor assistente do Instituto de Administração Pública da Leiden University em Den Haag, Alexandre Afonso (que desconheço quem seja) publicou em 2013 um post no seu blogue intitulado “How Academia Resembles a Drug Gang” que para além do cativante título mantém hoje a sua atualidade e um interessante pressuposto. Qual é? É o de que os sistemas académicos assentam numa dualização entre um grupo de happy few com empregos seguros e uma massa de outros com empregos precários e a prazo.

A somar a isto, os mesmos académicos que vão às televisões perorar sobre a falta de ética na política conseguiram criar uma lógica concursal com a transparência de um bloco de granito e um modelo de avaliação interna que deixa os procedimentos do portal BASE de contratação pública num canto reservado a meninos.

Em suma, e metendo o meu ponto na Bimby: Ninguém sabe - e na verdade habitualmente ninguém quer saber - de que maneira os senhores e senhoras da Academia fazem lá a vida deles e delas. Agora, com Raquel Varela, decidiu-se escrutinar. Mas basta ler dois artigos ou três para ter logo vontade de nos atirarmos de um terraço ou darmos por nós a reler o ‘Eurico o Presbítero’.

Inevitavelmente, passando esta perturbação, continuaremos todos na mesma. A Academia a mandar em quem a atura e nós, os comuns dos mortais, a milhas do que lá se passa. Sinceramente, acho que é a situação mais saudável, para todos os interessados.

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