Opinião

Falar do medo da morte, sem medos

Teresa Rebelo Pinto


A morte é um assunto delicado. O medo da morte também. Não apetece a ninguém falar sobre ele, é “normal” e ainda assim tão desconfortável. Às vezes arrepiamo-nos só de pronunciar a palavra M-O-R-T-E. Traz ansiedade, calafrios e palpitações. Há quem sinta vergonha de assumi-lo, mas o medo da morte é um problema comum e não escolhe idade, sexo ou estatuto social.

Este tema está presente nas nossas vidas desde sempre. Quando nascemos, os nossos pais já tiveram de lidar com a morte de alguém ou têm receio de nos perder. A forma como aprenderam a gerir esses medos também nos afeta, a sua atitude perante a morte é crítica.

Para ajudar a lidar com a morte, não é útil dourar a pílula nem muito menos fugir do assunto como diabo da cruz. É importante que os pais escolham o que vão transmitir aos filhos, permanecendo disponíveis para esclarecer todas as dúvidas que surgem no seu imaginário, quantas vezes forem necessárias. Isto torna-se particularmente desafiante na idade dos porquês, mas vale a pena aprofundar o tema. Não interessa tanto quais as crenças que se defendem, mas sim que sejam acessíveis e claras. Podemos dizer que os mortos vão para o céu, por exemplo, explicando que ficam para lá da atmosfera e não há risco de chocarmos com eles ao andarmos de avião.

Quando faltam recursos para esse aprofundamento em família, sugiro utilizar uma história ou fazer um desenho em que fique claro o que acontece para nós quando alguém morre. Se pensarmos bem, quase todas as histórias e contos infantis falam de morte: o pai viúvo da Cinderela, o lobo que comeu a avozinha, a própria Bela Adormecida que regressa à vida com o beijo do príncipe...

Para quem pense retirar estes episódios da atmosfera da infância, escudando-se num discurso “politicamente correto”, fique sabendo que isso está emocionalmente incorreto, dificulta o desenvolvimento dos afetos. Como qualquer outro medo, só é possível superar o medo da morte se formos construindo dentro de nós uma relação saudável com o assunto. Como em tantas outras áreas, o papel das histórias é central no crescimento afetivo.

Mesmo quando se fala abertamente de morte nas famílias, o medo pode manter-se presente e muitos adultos continuam a sofrer em surdina.

Partilho o exemplo de uma mulher de 54 anos, que me confidenciou nunca ter resolvido o medo da morte. Não a assustava propriamente morrer, mas sim o que aconteceria depois disso. Para onde iria a sua alma? O que aconteceria aos seus filhos? Eram estas as principais dúvidas e a falta de respostas tirava-lhe o sono. Outras vezes, acordava sobressaltada com pesadelos, cuja memória rapidamente se tornava difusa e distante. Ainda assim, o medo associado à morte continuou lá, desde pequena e sem qualquer solução à vista.

Aprender a lidar com a morte implica ser capaz de processar a dor, aceitar a perda, fazer lutos. As crenças que desenvolvemos sobre o significado da morte podem perder força em algumas fases da vida, por isso é essencial ir ressuscitando ou reconstruindo aquilo em que acreditamos.

Podemos concluir que o problema não é a morte em si (todos sabemos que iremos morrer um dia), mas sim a relação que temos com ela. É possível superar o medo de morrer, se houver espaço e oportunidade para sentir tudo o que isso invoca e transformar todas as interrogações em certezas ou esperanças. É possível se a morte deixar de ser um tabu. Falar sobre ela, partilhar experiências e vivências pode ajudar.

Na minha família, sempre que se falava do assunto, o meu avô materno sorria e com uma paz absolutamente contagiante dizia: “A morte é uma bênção”. Não sei se alguma vez teve consciência, mas foi decisivo para me ajudar a lidar com a morte. Quando fui ao seu funeral, repeti para dentro a frase que tantas vezes me disse, com aquele sorriso calmo. Oxalá existisse sempre alguém nas nossas vidas que ajudasse a transformar a morte num assunto mais pacífico.