Opinião

Estudassem

Aline Hall de Beuvink


Recordo-me quando estudantes se uniram contra a prova geral de acesso e o aumento das propinas, nos anos 90. Um jornalista apelidou-os de geração rasca. Como se vê, é a geração à rasca, pois as suas condições de trabalho nunca foram boas. A geração dos recibos verdes, da impossibilidade de ter ADSE, dos salários miseráveis, das décadas de trabalho quase escravo e incerto. É o que se passa com a maioria desta geração, que sobrevive mais do que vive. Lembro-me que, numa das manifestações, um rapazinho baixou as calças, mostrando as nádegas - não particularmente tonificadas, adiante - como forma de protesto. Há quem compare estas lutas com as desta geração, contra as alterações climáticas. Que ser-se jovem, idealista, lutador, é belo. E que a luta é legítima. Sim, a luta é legítima. Mas a forma, nem tanto, e se houvesse um pouco mais de substância seria melhor. Para não falar de coerência. À parte o péssimo gosto estético e educacional do tal fulano que baixou as calças em 94, os estudantes que vandalizam arte não estão a ser lutadores, estão a ser estúpidos. Outros reúnem-se com um ministro, pedem a sua demissão, como se isso resolvesse o problema. Não o faz e só esvazia a luta. Já não se pede coerência mas, ao menos, estudem um bocadinho para perceberem o que defendem. Talvez começassem por eles próprios: os ténis, que têm plástico, os telemóveis, com baterias de lítio, se calhar também não são bons para o ambiente. Defender causas sem abdicar do conforto é tramado. Mas, se estudassem, talvez arranjassem uma medida de combate às alterações climáticas. Porque, até agora, não vi nenhuma. E não há nada pior do que a falta de substância para se ser ignorado.