Opinião

Esquecer os direitos humanos? Não em meu nome

Helena Ferro de Gouveia


Quem acompanha futebol recorda-se do Mundial da Argentina em 1978. Meses antes do campeonato, em plena ditadura militar, teve lugar na Europa uma campanha defendendo o boicote ao evento e denunciando os crimes contra os direitos humanos do regime de Vilela. Olof Palme leva ao Parlamento sueco a participação da equipa nacional. O apelo ao boicote é subscrito em França por intelectuais como Marguerite Duras, Roland Barthes e Jean-Paul Sartre. O bispo protestante alemão Helmut Franz pede “que os gritos dos adeptos não abafem os gritos de dor dos torturados”. O futebolista alemão Paul Breitner, campeão da Europa em 1972 e campeão mundial em 1974, e o holandês Van Hanegem participaram em manifestações em Paris a favor do boicote. Ao contrário do que se pensa, a não participação de Johan Cruijff nesse Mundial não se deveu a causas humanitárias. “El Flaco” sofreu uma tentativa de sequestro em 1978 e, abalado, desistiu do futebol. Apesar de todos os apelos ao boicote, o Mundial da Argentina aconteceu, mesmo que 1978 coincidisse com o auge de brutalidade da junta militar.

Assim é o mundo do dinheiro sujo do futebol. Por isso, não surpreende ninguém que um campeonato manchado por suspeitas de corrupção - que levaram à queda Michel Platini e Sepp Blatter -, que terá tido a intervenção do Presidente francês Sarkozy (seis meses depois da atribuição da organização do Mundial ao Catar, o país encomendou caças franceses no valor de 14,6 mil milhões de dólares) e pelo claro desrespeito por direitos humanos e ambientais aconteça como se nada fora. The show must go on.

Passemos em revista as críticas a este Mundial, começando pelos custos. Estima-se que o Mundial do Catar tenha custado mais do que os 21 anteriores combinados, ou seja, entre a construção de novos estádios, hotéis e as necessárias infra-estruturas, este evento vale 220 mil milhões de dólares. Ou seja, quase o PIB português.

“Estamos numa auto-estrada rumo ao inferno, com o pé no acelerador”, disse António Guterres no seu discurso na abertura da cimeira da COP27 que decorreu em Sharm-el-Sheikh, no Egipto. Num momento em que o caos climático é uma das preocupações mais prementes da humanidade, a bola rola num deserto e com estádios climatizados, e nem o calendário anómalo - é o primeiro Mundial jogado no Inverno - permitiu minimizar o impacto ambiental. A isto soma-se a pegada ecológica dos cerca de 160 voos diários de e para os países vizinhos, porque o Catar não tem capacidade hoteleira para o volume de visitantes previstos. Mais bipolar que isto? Ainda se criticam jovens activistas climáticos quando adultos agem assim?

Para construir estes estádios terão morrido 6500 escravos modernos, da Índia, do Nepal, do Bangladesh, isto na estimativa mais optimista - o número real poderá ser muito superior. O acesso a esses trabalhadores será vedado aos jornalistas internacionais, assim como estão proibidos de entrevistar pessoas na rua, de filmar em hospitais ou universidades. Estamos conversados quanto à liberdade de imprensa.

Numa nota final, mas não de rodapé, as mulheres precisam de autorização masculina para estudar, casar, viajar. As relações sexuais com pessoas do mesmo sexo são criminalizadas, com penas até aos sete anos.

Em 1974, o hino alemão ao Mundial desse mesmo ano, interpretado pelo jogadores da Mannschaft, era: “Fußball ist unser Leben/ Denn König Fußball regiert die Welt”. Traduzido, diz o seguinte: “O futebol é a nossa vida, pois o rei futebol dirige o mundo.”

A letra continua a ser certeira há décadas.

Mala diplomática a subir

Joe Biden demonstrou a sua experiência política na forma como geriu a “crise dos mísseis”, que nos colocou próximo de uma nova escalada da guerra na Ucrânia, de consequências imprevisíveis. “Concordamos em apoiar a investigação da Polónia sobre a explosão. Vamos certificar-nos de que vamos descobrir exactamente o que aconteceu e vamos determinar colectivamente o nosso próximo passo.” Questionado sobre se o míssil foi disparado a partir da Rússia, o líder norte-americano disse que havia “informações preliminares que [contestavam]” essa possibilidade. “É improvável que tenha sido disparado da Rússia, mas veremos.”

Mala diplomática a descer

O funeral de Mahsa Amini aconteceu há dois meses e, desde então, os iranianos nunca mais pararam de protestar contra o regime. Os protestos no metro de Teerão tornaram-se diários, com os passageiros a gritarem palavras de ordem nas plataformas e escadas rolantes: “Se não nos mantivermos juntos, seremos mortos um a um.” Esta semana, as forças de segurança do regime dispararam contra manifestantes desarmados no interior do metro: há imagens que mostram as pessoas a correr e a gritar ao som dos disparos numa plataforma e outras em que se vêem homens entrarem nas carruagens e espancarem alguns passageiros, incluindo mulheres sem hijabe.