Opinião

Espalha-chagas

Aline Hall de Beuvink


Sabe-se que Agosto é sinónimo de silly season. Mas alguns acontecimentos que iniciaram o mês indicam que é a stupid season. Há três anos que os países da UE recomendam leituras de Verão para dar a conhecer o melhor que têm escrito. Portugal já recomendou as conhecidas e basilares “Novas Cartas Portuguesas” e “Leva-me Contigo”, de Afonso Reis Cabral. Este ano escolheu uma coisa chamada “A Raridade das Coisas Banais”, de Pedro Chagas Freitas. Que faz jus ao nome do meio. Se a intenção era provocar náuseas nos leitores europeus, Portugal conseguiu-o. E ainda teve o desplante de o equiparar a Saint-Exupéry. Comparemos antes com os temas que outros países escolheram: as condições dos refugiados, os migrantes, traumas históricos do século XX (de certeza que quem lê o Chagas fica com alguma espécie de trauma), reflexões sobre liberdade, injustiça, fome, pandemia, guerra, o impacto dos populismos, o amor como forma de salvar. E o que dá Portugal? Pérolas como “mudo todos os dias, mas sou feliz assim. Queremos ser hoje o que fomos ontem, e poucas vezes percebemos que só somos hoje o que fomos ontem quando não somos hoje o que fomos ontem”.

A justificação portuguesa está ao nível da escrita chaguenta: “Freitas propõe ao leitor que se desloque para águas mais profundas e pense sobre a infância e a morte, sobre o que significa ser um adulto e sobre o amor.” Portugal, o espalha-chagas. Mais valia recorrer a livros de auto-ajuda. Os outros países sugerem obras com reflexões densas sobre problemas da vida, da História, da humanidade. Portugal vende alguém que diz: “É assim que está tudo bem, é assim que estamos todos bem.” Eça e Saint-Exupéry estão a dar voltas no túmulo.

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