Opinião

Entre o Twitter e o Governo: o dilema da Iniciativa Liberal

Rafael Corte Real


Rejeitei sempre o puritanismo associado aos novos partidos e denunciei, em diversas ocasiões, a fragilidade desse discurso dentro da Iniciativa Liberal. Era uma questão de tempo até chegar a nossa vez. A ideia de que não ter uma juventude partidária nem estruturas distritais formalizadas, conjugada com uma quota elevada e membros maioritariamente sem experiência política, seria suficiente para evitar os vícios dos partidos tradicionais exclui da equação dois elementos fundamentais: o poder e a natureza humana. A extemporânea demissão de João Cotrim de Figueiredo, imediatamente seguida do anúncio de uma candidatura preparada na clandestinidade pela cúpula, lançando o partido num processo eleitoral interno em plena discussão do Orçamento do Estado, foi esclarecedora. Afinal, ser como os outros estava à distância de 5% dos votos.

A Convenção Nacional que se avizinha será decisiva para o futuro da Iniciativa Liberal. Não apenas pela circunstância inédita de existir mais do que uma candidatura à Comissão Executiva – cenário natural e desejável em qualquer organização partidária – mas, essencialmente, pelas diferenças de fundo entre os dois projectos com maior probabilidade de vencer essa eleição. De um lado, Rui Rocha apresenta-se como o candidato designado pelo núcleo duro de um aparelho partidário que, tendo desempenhado um papel relevante nos resultados eleitorais atingidos, tem sido incapaz de marcar a agenda e de rentabilizar o estatuto de quarta força política nacional. Esta impotência foi reconhecida pelo próprio líder cessante no momento da sua demissão, justificando-se com a necessidade de definir uma nova estratégia. Do outro lado, Carla Castro vai a jogo como outsider, apesar de o seu contributo para o sucesso do partido ser incomparavelmente superior ao do seu adversário, em particular na assessoria parlamentar e no Gabinete de Estudos. Amplamente admirada e acarinhada pelas bases, essa condição decorre de não se ter conformado com um processo de sucessão pouco liberal, avançando corajosamente com uma proposta alternativa.

Para compreender o que está em causa nesta disputa eleitoral é necessário conhecer a forma como a Iniciativa Liberal tem sido gerida ao longo do tempo. De startup alavancada pelo entusiasmo de algumas dezenas de membros, com poucos recursos financeiros e praticamente sem cobertura na comunicação social, à eleição de um deputado regional, noventa autarcas e oito deputados nacionais, passaram menos de cinco anos. Como a necessidade aguça o engenho, o partido encontrou no engagement das redes sociais e na concepção de outdoors criativos um meio low cost de atrair o foco mediático. Não foi preciso inventar a roda: três bandeiras políticas claras, slogans sonantes e um público-alvo definido. O rasgo de Carlos Guimarães Pinto fez o resto. Na sombra, consolidava-se o núcleo duro que transitaria para a equipa de João Cotrim de Figueiredo e que, agora, pretende perpetuar-se com Rui Rocha.

Não é difícil um grupo restrito de pessoas se deslumbrar com o sucesso. Quando acontece, a tendência é repetir a fórmula à exaustão e procurar convencer os outros de que são imprescindíveis. É um clássico: nós ou o caos. O pluralismo passa a ser entendido como uma ameaça e instala-se a narrativa do medo. Difícil é observar esta postura num projecto liberal. Não é de agora. Muitos dos que vivem mais intensamente o partido, em especial membros das coordenações locais e conselheiros nacionais, já assistiram ou sentiram na pele este modus vivendi, assente na paranoia com fugas de informação, limitação do debate político, opacidade nas contas e discricionariedade nos processos de selecção de candidatos.

Quando afirmo que este é um momento decisivo para o futuro da Iniciativa Liberal, faço-o convicto de que estão em cima da mesa dois modelos de desenvolvimento diametralmente opostos, tanto para fora como para dentro. Se o objectivo for a consolidação de um partido de protesto, portador de uma mensagem política pouco abrangente e movida a retweets, acompanhada de uma gestão interna centralizada e de um processo de tomada de decisão limitado a meia dúzia de dirigentes, Rui Rocha é o candidato certo. Se o objectivo for evoluir para um partido com aspirações governativas, construtivo, capaz de alargar o âmbito das suas propostas políticas e de atrair os melhores da sociedade civil, enquanto promove uma gestão interna descentralizada, que vá além da Comissão Executiva e valorize o papel das estruturas locais, recomenda-se vivamente o voto em Carla Castro.

No fundo, deve a Iniciativa Liberal ficar refém de uma dívida de gratidão pelos serviços prestados a um núcleo duro que, perante o esgotamento de um modelo outrora ganhador e actualmente estagnante, não teve a grandeza de sair de cena, ou, em alternativa, deve a Iniciativa Liberal dar um passo em frente, aceitar correr o risco da mudança e preparar-se para os desafios seguintes, onde já não beneficiará do efeito novidade, nem do seguro de vida Rui Rio?

Da minha parte, não estou disposto a esperar por um mau resultado eleitoral para optar pelo caminho certo. Se há característica que nos distingue é a coragem política. O partido tem sabido adaptar-se a cada contexto e estou convencido que voltará a ser assim nesta Convenção Nacional. Seria um erro histórico não eleger a Carla Castro. Será uma extraordinária líder da Iniciativa Liberal.