Opinião

Egoísmo, medo e angústia

Filipe Alves


A vitória de um partido pós-fascista nas eleições italianas é o que é. Não adianta dourar a pílula: é a vitória de um partido pós-fascista. Giorgia Meloni pode criticar o legado de Mussolini e fazer juras eternas à democracia e ao Estado de direito que não deixa de ser a líder de um partido de extrema-direita. Não é a mesma extrema-direita que marchou sobre Roma em 1922, perseguiu e assassinou opositores políticos, invadiu a Abissínia e conduziu Itália a uma desastrosa aliança com o III Reich, que culminaria na falência moral e civilizacional de Saló. Mas não deixa de ser a extrema-direita do nosso tempo, com os seus laivos de populismo, intolerância e nativismo. Uma extrema-direita que, tal como a sua antepassada ideológica, se alimenta de alguns dos piores sentimentos que existem nas profundezas da alma humana, como o egoísmo, o medo e a angústia.

Os tempos que vivemos são, infelizmente, propensos a estes sentimentos. A chegada de milhares de migrantes às costas de Itália e de outros países europeus desperta o egoísmo, sobretudo da parte de quem tem pouco e receia ser ultrapassado pelos recém-chegados. Não por acaso, e a título de comparação, na Guerra da Secessão dos Estados Unidos, os maiores defensores da Confederação eram os brancos pobres, que nem sequer tinham escravos, mas que morreram às centenas de milhares para defenderem a manutenção de um sistema esclavagista que beneficiava sobretudo os grandes latifundiários. E porquê? Receavam ser ultrapassados pelos negros se estes ficassem livres.

Por sua vez, a mudança em curso na Europa a nível demográfico, social, cultural e religioso alimenta o medo do outro. Muitos europeus não conseguem lidar com esta mudança, tornando-se facilmente presas de discursos falaciosos que idealizam e mitificam um passado que nunca existiu. Por fim, ao egoísmo e ao medo do outro junta-se a angústia colectiva provocada pela pandemia de covid-19, pelas consequências económicas da guerra na Ucrânia e pela recessão que aí vem.

O que deve fazer a direita moderada, democrática e europeísta, perante a ascensão dos extremistas? A meu ver, não deve ceder às causas da extrema-direita nem adoptar o seu discurso. Em segundo lugar, apresentar soluções concretas para problemas concretos. E encontrar oportunidades para marcar a diferença no que diz respeito a melhorar as condições de vida dos cidadãos comuns. Por exemplo, estamos a assistir a um processo de “desglobalização”, com uma inversão da tendência de deslocalização de indústrias para a Ásia. Este processo, que também ajuda a explicar a subida da inflação, abre uma oportunidade para a reindustrialização, em moldes sustentáveis, do continente europeu, criando empregos em regiões que nas últimas décadas têm sido esquecidas. Os partidos democráticos têm de apresentar novas soluções que contribuam para resolver os problemas das populações e não ter medo de pensar “fora da caixa” se necessário. Em terceiro, e para concluir, a direita moderada não deve fazer alianças com a extrema-direita, mesmo que isso signifique ficar fora do poder durante alguns anos, até porque a História ensina o que acontece a quem decide correr esse risco.