Opinião

E se tivesse sido Paulo Macedo?

Octávio Lousada Oliveira


Tenho para mim que um dos factores para que a direita não consiga mais do que passagens episódicas pelo poder – a excepção dá pelo nome de Aníbal Cavaco Silva – é o seu complexo de inferioridade em relação à esquerda. Em face dessa projecção de si mesma, enreda-se em discussões estéreis sobre como adversários, jornalistas, comentadores e académicos a percepcionam, analisam e retratam. Pior: sobre como entende que deveriam percepcionar e retratar.

Porventura por ter a consciência de que existe uma maioria sociológica de esquerda – 48 anos de ditadura militar e de Estado Novo dificilmente poderiam ter surtido efeito diferente –, surge o queixume de que os partidos de esquerda são beneficiados por quem esmiúça a cena política. Percebo o lamento. A agenda mediática tende a ser mais cerimoniosa, deferente e bem-comportada quando o PS, com ou sem apoio de forças à sua esquerda, exerce o poder.

Basta ver como os jornalistas da Sábado foram desacreditados quando começaram a escalpelizar as patranhas de José Sócrates ou recordar o desvelo com que comentadores apaniguados peroravam em abono do ex-primeiro-ministro quando este movia furiosas perseguições a outros jornalistas e tentava pôr uma empresa do Estado, a PT, a comprar um canal de televisão, a TVI, para silenciar uma pivô, Manuela Moura Guedes.

Sendo um viés insofismável, que não creio que resulte de má-fé ou falta de profissionalismo, mas de uma concepção de que o estado de normalidade passa por serem os socialistas a governar, não faz grande sentido que os líderes do centro-direita desperdicem uma gota de suor com esse assunto. Não vale a pena queixarem-se do vento; percebendo em que direcção e com que intensidade ele sopra, devem, ao invés, ajustar as velas.

Vem isto a propósito de mais uma declaração infeliz de Marta Temido. Confrontada com o caos em que se encontra o SNS, com demissões hospitalares em bloco em diversas zonas do país, a ministra achou boa ideia defender que um dos caminhos para resolver o problema é contratar profissionais mais resilientes. Resiliência, mostra-nos o dicionário, é sinónimo de flexibilidade, elasticidade, uma característica de um material que é capaz de recuperar a forma original após uma súbita alteração. Ora, será razoável ou justo que alguém exija mais aos nossos médicos, enfermeiros e demais funcionários do sector depois da descida ao inferno que tem sido a pandemia? Não será ainda mais obsceno fazê-lo quando qualquer titular da pasta conhece a realidade pré-covid-19 dos nossos hospitais? Não terá Temido noção de que há médicos e enfermeiros que trabalham o quádruplo do limite legal de horas extraordinárias? Conviverá bem consigo própria ao erguer o dedo contra quem tem tentado, a custo, que os doentes não covid não fiquem mais para trás?

Temos assistido a tudo. A um primeiro-ministro que chamou “cobardes” aos médicos que estiveram envolvidos no fatídico surto de Reguengos; a um António Costa ávido por premiar os profissionais de saúde... com a final da Liga dos Campeões em Lisboa; e até a um assomo de ira do chefe do Governo, diante do Presidente, da oposição e dos epidemiologistas, canalizado para a sua ministra.

Já não se trata de amadorismo. O problema é de decência. Temido está há tempo a mais em funções. Perante o país, vale-lhe a sorte de não se chamar Paulo Macedo. Ainda que não se deva perder tempo às voltas com esta dualidade, o regime também é isto.

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