Opinião

E se Sócrates tivesse perdido as eleições em 2009?

António Capela


O que teria acontecido se Napoleão tivesse vencido em Waterloo? Como seria o mundo se os Aliados não tivessem ganho a Segunda Guerra Mundial? Como teria sido o desenvolvimento da nossa jovem democracia se o atentado de Camarate tivesse fracassado? As suposições históricas são sempre um exercício engraçado. São incontáveis os cenários possíveis e as visões que se podem reclamar.

A mente humana, com a sua insaciável criatividade, não se cansa de construir visões alternativas – umas mais consistentes, outras menos. Ainda assim, a História não se escreve no condicional. O contrafactual é meramente imaginativo. No fim, a resposta à pergunta “e se?” é quase sempre “não sabemos”.

As excepções à regra do fluir histórico podem ser parcialmente dadas quando circunstâncias semelhantes às do passado se repetem e temos a ousadia de, nesses novos retornos, dar respostas diferentes. Hegel escreveu que “a História se repete sempre pelo menos duas vezes”. Nietzsche foi mais longe ao propor a ideia do eterno retorno, sugerindo que todos os acontecimentos históricos estão condenados a repetir-se infinitas vezes ao longo duma linha de tempo infindável. Karl Marx, com maior acutilância e, talvez, mais sentido de humor, comentou que os factos, quando sucedem, são uma tragédia, e quando se repetem uma comédia.

Em 2009, o país foi a eleições. Num lado estava o primeiro-ministro socialista em funções – José Sócrates –; no outro, uma candidata séria, com vastos conhecimentos de economia – Manuela Ferreira Leite. As sondagens não atribuíam maioria absoluta a ninguém: umas concediam uma vantagem de 6-7 pontos ao socialista, outras apontavam para um empate técnico. O candidato rosa prometia mundos e fundos e oferecia uma perspectiva de continuidade; a candidata laranja tinha um discurso com menos rasgo, mas com maior responsabilidade: alertava para a fragilidade das finanças públicas, para as fraquezas da nossa economia – Portugal não estava preparado para um cenário internacional adverso.

No dia 27 de Setembro de 2009, os portugueses foram chamados a votar e uma maioria, não absoluta, escolheu o candidato do PS como primeiro-ministro. Não houve, portanto, suficiente adesão aos avisos, às propostas e à retórica da candidata do PSD.

Todos sabemos o que aconteceu depois: a crise das dívidas soberanas, e, nem dois anos volvidos, em Abril de 2011, o PS foi obrigado a pedir ajuda externa e a negociar um rígido programa de ajustamento. Caiu então o governo e sucederam-se anos dificílimos, com medidas duríssimas. O Estado esteve a ponto de falir (como sucedeu, de resto, na Grécia), mas a heróica gestão de Pedro Passos Coelho evitou um desastre maior.

A pergunta que se levanta é: o que teria acontecido se, logo em 2009, tivesse vencido Manuela Ferreira Leite, e não José Sócrates? Provavelmente, não teríamos incorrido nas loucuras financeiras, nem na desorientação económica, nem na irresponsabilidade do governo socialista. Não teria havido resgate, não teria havido uma escalada dos juros da dívida pública, não teria havido cortes no 13.º mês, não teria havido greves sem fim, não teria havido congelamento da função pública, não teria havido corte nas pensões, não teria havido um “brutal aumento de impostos”.

Penso que são suposições justas – mas, admito, são somente suposições. Contudo, atrevo-me a dizer que agora temos uma oportunidade de saber o que teria acontecido se o PSD tivesse vencido em 2009. O paralelo é possível, porque o cenário de então tem muitas semelhanças com o actual.

Temos um primeiro-ministro socialista recandidato, a liderar as sondagens, sem perspectivas de maioria absoluta, a prometer mundos e fundos (o RSI). Temos um líder da oposição com um discurso sério, responsável e com domínio da área económica. E temos uma situação económico-financeira tristemente frágil, nalguns aspectos mais frágil que a de 2009.

Atenda-se: em 2008, o défice tinha sido de 2,7%; melhor do que os 4,3% de 2021. Em 2008, a dívida pública era de 75%; fecharemos 2021 com aproximadamente 130%. Em 2008, as taxas de juro do BCE estavam nos 4%; hoje, estão nos 0%.

Não é certo que venha a haver, nos próximos quatro anos, uma crise financeira internacional da magnitude da de 2008. Porém, dado o aumento da inflação na Alemanha (e nos outros países europeus), espera-se a subida das taxas de juro, que trarão inevitavelmente consequências negativas para o cenário macroeconómico da zona euro. Pode não haver uma crise, mas vêm aí tempos difíceis e a verdade é que pouco ou nada fizemos ao longo dos últimos seis anos para preparar a economia portuguesa.

Talvez seja tarde demais, talvez ainda estejamos a tempo. Não sabemos. Não sabemos também se a derrota de Sócrates em 2009 teria sido suficiente para salvar o país. Mas sabemos que, em parte, a História se repete. E podemos aprender com ela. Podemos também cair no ridículo de repetir os erros do passado. A escolha é nossa.

Em quem devemos votar no próximo dia 30? A resposta que proponho ao leitor que chegou ao fim deste artigo é uma citação do próprio António Costa: “A História explica.”

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