Opinião

E se a Iniciativa Liberal ficar em terceiro?

Tiago Mendonça


Nas últimas semanas, a discussão sobre a medalha de bronze eleitoral tem oscilado entre o Bloco e o Chega. Do meu ponto de vista, ainda com as eleições relativamente longe (15 dias, em política, são uma eternidade), antevejo que o Bloco, a Iniciativa Liberal e o Chega possam ter mais ou menos o mesmo resultado e, creio, todos ligeiramente acima do Partido Comunista Português.

Não se percebe muito bem quais as razões para votar no Bloco de Esquerda. Eu, se fosse um eleitor de esquerda (à esquerda do PS) que acreditasse, porém, num modelo de geringonça, teria alternativas relevantes no Livre ou até no PAN, que oferecem muito mais garantias de estabilidade, são vincados no tema ecológico e apresentam medidas de preocupação social idênticas ao Bloco de Esquerda. Se fosse um eleitor à esquerda do PS mas conservador, teria sempre o voto no Partido Comunista. Oscilando entre o PS e o BE, penso que os debates foram esclarecedores de que o PS tem uma agenda de esquerda – aumento do salário mínimo, progressividade dos escalões, SNS 100% público –, pelo que tenho dificuldades em compreender o voto no BE. Claro que terá sempre, pelo menos, uns 5%, porque é um partido já consolidado no nosso sistema.

Dá ideia nos debates que o Chega tem perdido um pouco o gás. Aliás, Ventura ganha na confrontação. A sua votação presidencial (incrível) deveu-se à campanha hedionda da esquerda (do batom vermelho), em que todos os dias se falava e atacava Ventura, diabolizando-o. Impondo uma ditadura de politicamente correcto inaceitável. O voto no Chega é muito mais reactivo do que propriamente intuitivo. Nesta campanha existiu uma normalização do Chega, debatendo-se de forma civilizada (tirando Chicão), o que tira a força ao partido de André Ventura, que tem um outro problema que é não ter propriamente uma ideologia característica. Além disso, muito voto no Chega é nas zonas suburbanas, que elegem menos do que os círculos de Lisboa ou do Porto, pelo que, mesmo com mais votos, pode eleger menos deputados.

A Iniciativa Liberal tem feito uma maratona, apresentando cada vez mais quadros de qualidade, sendo muito séria na forma como coloca as questões e sendo claramente um partido com uma matriz ideológica vincada e existente em qualquer país do mundo. Tem feito um esforço fantástico na explicação exaustiva das suas propostas. Penso que Cotrim começou mais morninho nos debates, mas melhorou muito, fazendo bons debates com Ventura, Rio e Costa – os que riscam mais. Especialmente com o primeiro-ministro esteve muitíssimo bem. Não acredito que existam apenas 5% de liberais em Portugal, acho que são muitos mais. É um partido que entra muito bem nos grandes círculos eleitorais (Lisboa e Porto) que elegem mais e, sendo muito liberal nos valores, ganha algum voto ao próprio Bloco de Esquerda. Penso que a IL beneficia de ter como rosto Cotrim Figueiredo – mais ponderado e focado no essencial, ao contrário de Carlos Guimarães Pinto, que tem uma obsessão com a TAP que lhe tolda o discernimento.

Admitindo que estes três partidos possam andar todos em cima dos 5 a 6%, não me chocava que fosse a IL a arrecadar a medalha de bronze.

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