Opinião

E os nossos refugiados (leia-se retornados)?

Rita Matias


O 25 de Abril chegou com toda a solenidade e festividade. Nesse dia soalheiro, as ruas encheram-se de cores garridas, as pessoas passearam de cravos nas mãos e multiplicaram-se as cerimónias, com toda a pompa e circunstância, desde a autarquia local até ao governo central. Os discursos, independentemente da cor política ou espectro partidário, variaram pouco, numa comunhão de idealismos e preceitos que tinham tanto de poético quanto de irrealismo. Diria até que há mais dogmatismo no 25 de Abril do que no 25 de Dezembro. É que, se temos como ponto assente que aquela madrugada findou um regime que não era democrático, não podemos afirmar que os cravos daquele dia trouxeram consigo a democracia. É que esta esquerda, que se considera dona de Abril, foi verdadeiramente proprietária do caos que o PREC originou no país: nacionalizações, expropriações e um programa de “dinamizações” do comunista Vasco Gonçalves que quase implantaram um modelo soviético no nosso país.

Todos estes factos, que lesaram milhares de portugueses, são esquecidos, Abril após Abril, num ataque à memória histórica nacional. Talvez seja por isso que qualquer abordagem que desmistifique as fábulas “abrileiras” seja tão incómoda para os pilares do regime assente numa Constituição que diz descaradamente “abrir caminho para uma sociedade socialista, no respeito da vontade do povo português”. Será essa vontade genuína num povo condicionado pela versão dos “vencedores”, que apaga da História meio milhão de compatriotas deixados à sua sorte – os chamados retornados – e milhares de corpos de militares portugueses, abandonados em África?

Quase meio século depois, finalmente, um líder político teve coragem de, numa sessão solene da “natividade” do novo Portugal, afirmar: “Falhámos aos retornados. Falhámos aos ex-combatentes. (...) Todos eles são tão portugueses como nós.” As reacções às palavras de André Ventura foram as esperadas: inquietação e agitação nas cadeiras dos convidados, dos capitães de Abril e mesmo dos deputados. Talvez porque, desde o início da Terceira República, apenas seis vezes – repito, seis vezes – foram mencionados os mais de 600 mil retornados que chegaram sem nada, deixando toda uma vida para trás. Hoje, estes compatriotas caberiam em todas as definições de “refugiado” que tanta solidariedade geram na nossa sociedade. Contudo, a classe política continua deliberadamente a esquecer as chagas profundas desta República, que se ergue entre escombros e misérias, nomeadamente o desamparo de quem fugiu à esquerda militarizada e radical que tomou de assalto e com violência o Ultramar português, podendo contar apenas consigo próprio para se restabelecer na – até então – “Metrópole”, supostamente já democratizada. Nós cá estaremos para garantir que não continuarão a ser esquecidos!

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