Opinião

E, há 20 anos, o nosso mundo mudou...

André Pardal


Mais do que recordar (adaptando) as palavras do saudoso Baptista Bastos “mas onde é que tu estavas no 11 de setembro?”, como parece apanágio de alguns, importa sim refletir sobre as consequências que tiveram para todos, e cada um de nós, aqueles bárbaros e cobardes ataques terroristas no coração da – 12 anos depois da “Queda do Muro de Berlim” – então única superpotência mundial.

O que os ataques demonstraram foi – acima de tudo – a total vulnerabilidade do mais “seguro” País do Mundo, aquele que para muitos era então o “polícia do Mundo”, capaz de auxiliar Países e Povos em dificuldade (uns mais do que outros, é certo) bem longe das suas fronteiras, mas que não conseguiu prever ou proteger o centro do seu poder militar e financeiro.

Para aqueles – como Fukuyama – que advogavam o “Fim da História”, com o advento (e triunfo) da democracia liberal ocidental - capitaneada pelos EUA - como ponto de evolução final da civilização humana, o que o “11 de setembro” veio demonstrar foi o seu rotundo falhanço.

Desde logo, a nossa noção de segurança (coletiva e individual) mudou por completo. Sacrificámos, a partir de então, liberdades individuais (quem se lembra da simplicidade nas viagens de avião, comparadas com o atual suplicio) em nome dela. Tornou-se habitual (mesmo na Europa) ver militares (das Forças Armadas) armados nas ruas, para garantir a nossa segurança.

Uma outra – inevitável – consequência foi a retaliação dos EUA, atingidos no seu coração militar e financeiro, com o lançamento de operações militares primeiro no Afeganistão (albergue da Al-Qaeda e do seu líder Bin Laden, que viria a ser morto apenas em 2011) onde estiveram, em conjunto com os seus aliados (primeira vez na História que o Art.º 5.º do Tratado do Atlântico Norte – Defesa Coletiva – foi acionado) 20 anos, e, depois, no bem mais polémico Iraque, a pretexto das mais do que certas “armas de destruição maciça”.

Claro que, o desagregar do Iraque de Saddam Hussein (e como nunca há vazios de poder) originou o fortalecimento de movimentos terroristas mais ou menos inorgânicos (Daesh e suas ramificações), que espalharam (e continuam a espalhar) o terror um pouco por todo o Médio Oriente e por parte do Continente Africano (como se pode verificar pelo caos que reina no Norte de Moçambique).

Em consequência disso mesmo, milhões de pessoas foram obrigadas a migrações forçadas (em especial para o Continente Europeu), proporcionando ao Mundo um espetáculo degradante e pouco edificante em pleno Sex. XXI.

Por fim, e não menos importante, como reação a esse fenómeno migratório sem precedentes nos últimos anos, floresceram um pouco por todo o Ocidente, fenómenos e partidos populistas, onde o discurso anti-imigrantes e xenófobo floresceu.

Para onde caminhamos nos próximos 20 anos, não sabemos, contudo, as consequências desse fatídico dia foram, são e serão sentidas por todos. Caberá aos responsáveis políticos (e não só aos americanos) entender e combatê-las, para que – como disse George Santayana – “Aqueles que não conseguem recordar o passado, estão condenados a repeti-lo”.

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