Opinião

E Abril vai morrendo

Ascenso Simões


A morte de Jorge Sampaio faz-nos perguntar sobre o caminho que seguimos, como cumprimos os sonhos que o 25 de Abril de 1974 nos trouxe.

Ele foi um país. Um país que lutou contra uma ditadura, um país que, do lado farto das reduzidas elites, nunca deixou de perspectivar um destino siamês entre liberdade e igualdade.

Notava-se a distância do comum e o aborrecimento perante a vulgaridade, saia-lhe a ira perante certas afirmações do povo simples, mas sempre se recompunha com classe e fleuma.

Os portugueses recordá-lo-ão como Presidente. O tempo ajudou a um olhar amplo, transversal, mesmo que ele nunca tivesse cedido à tentação do unanimismo. Em todos os outros postos ficou a memória de uma parte, uma certa irredutibilidade no alcançar do consenso.

Eu não gostaria de o recordar como presidente. Nem mesmo como secretário-geral do meu partido. Gostarei de o recordar como líder estudantil no início e como militante solidário no final.

A figura de Sampaio não foi simpática para mim quando, em 1980, o conheci. O seu discurso era inacessível, a forma de o transmitir não se afigurava amigável. E o momento até era propício, o PS estava tão mal que nesse dia e aquela hora só três socialistas ouviam Sampaio. A última vez que falei com ele, não passou ainda um ano, foi para tentar ajudar a encontrar empresas que recebessem, no âmbito de um processo de integração, refugiados.

Pelo meio, nestes quarenta anos, houve momentos de confronto. No seu segundo congresso guerreei contra o elitismo da sua direcção política e contra a falta de sentido estratégico; dois dias depois da derrota de 1991, fui mesmo um dos dirigentes nacionais da JS que tiveram a responsabilidade de o confrontar com a inevitável saída. Sampaio podia ter saído, mas assumiu a honra de uma derrota. Como nos faltam hoje, neste tempo de polarização, quem lute mesmo que se saiba derrotado de antemão, quem honre os vencidos das batalhas prévias às grandes vitórias.

O pouco tempo em que com ele convivi, enquanto membro do Governo, foi profundamente compensador. Fez uma presidência aberta dedicada ao tema da segurança rodoviária, área que eu tutelava, manteve connosco uma ligação cúmplice.

O partido de Sampaio nunca se aproximou do meu, mas o seu exemplo de vida sim.

Mário Soares era tão próximo das pessoas quando tinha delas o princípio da utilidade. Sampaio nunca utilizou as pessoas, sempre teve com elas, mais do que por decorrência de educação esmerada, uma obrigação cristã.

A morte de Sampaio leva mais uma parte do 25 de Abril. Sampaio era o 25 de Abril em pessoa, o sonho dos cravos que nunca morria.

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