Opinião

Dois anos de ódio

Nuno Lebreiro


Em1984”, de George Orwell, uma das componentes fundamentais do equilíbrio da população eram os “Dois Minutos de Ódio”. Todos os dias, durante dois minutos, as pessoas, bem instigadas por imagens de inimigos do povo transmitidas pelos ecrãs, davam largas à indignação berrando e gritando, em frenesim, soltando o ódio que sentiam num completo êxtase de expiação e violência. Num momento, o objecto do ódio poderiam ser os inimigos do continente oposto; no outro, o dissidente político denunciado pelo governo; outras vezes, o vizinho cuja desatenção as melindrava. Em comum, sempre a capacidade de canalizar de dentro de cada um a vocação para odiar, detestar, desprezar.

Configurando uma manifestação de controlo social, espécie de válvula de escape capaz de libertar tensões destrutivas acumuladas por uma população vigiada ao mais ínfimo pormenor, os Dois Minutos de Ódio – extrapolando no mesmo mecanismo dos espectadores que ainda hoje em dia, nos estádios de futebol, gritam durante 90 minutos contra a equipa adversária, os árbitros e fiscais de linha ou, também, a própria equipa que deveriam apoiar – servem como instrumento de pacificação social. De forma eficaz, quase masturbatória, em conjunto, numa espécie de catarse colectiva própria de cultos e rituais, aliviam-se os indivíduos de frustrações e insatisfações, fracassos e desilusões, consolando-se no conforto do desagravo por todos sentido, em simultâneo, de forma igualitária, numa partilha transcendente.

Na base do modelo de estabilização social temos, desde logo, o alívio individual de agruras e frustrações que poderiam fazer perigar o conforto dessa pessoa dentro do regime; depois, não menos importante, ser um processo colectivo e partilhado, controlado pela “autoridade” – no caso, os capatazes do Grande Irmão –, garantindo o carácter igualitário que a distopia pretende evidenciar numa ilusão de irmandade e comunhão. Orwell resume o cenário como a impossibilidade de não se deixar levar por “um pavoroso êxtase de medo e vingança, um desejo de matar, de torturar, de esmagar rostos com um malho” que percorria de forma electrificante a multidão ali reunida para odiar.

No entanto, ressalva Orwell, “a raiva que cada pessoa sentia era uma emoção abstracta, sem objecto, que poderia ser orientada de um lado para o outro como a chama dos maçaricos”. Ou seja, precisamente por essa raiva residir naquele que se enraivecia, e não num qualquer acto particular que a justificasse, tal como as cenouras acenadas diante dos olhos dos burros os fazem virar para a direita ou para a esquerda, também ali, consoante a direcção do maçarico, assim o colectivo enraivecido, em uníssono, ora odiava para ali ou para acolá.

Esta orientação do ódio, ainda para mais quando convocado num transe hipnótico colectivo, é o aspecto fundamental de todo o processo, representando um controle férreo da autoridade sobre a população na medida em que consegue, com sucesso, não apenas regulamentar os aspectos mais íntimos das suas vidas e das suas psiques como, mais relevante ainda, manipular os processos emocionais que garantam a sua cega obediência ao ritual social e político consubstanciado numa rotina que acumula, mas depois, de forma rotineira e habitual, por decreto, também alivia frustrações, ansiedades e manias. No final, imersos no mar do colectivo, os indivíduos sabem que podem deixar-se levar – oprimir –, diluindo-se no todo informe, colossal, monstruoso, porque a cada dia, a dada hora, sabem também que serão libertados do peso dessa própria opressão, largando no transe colectivo as ganas que o chicote permanente do colectivo lhes imprime diariamente no sentimento.

Opressão, seguida da ilusão da libertação, manipulação e controlo absoluto, assim se resumem os Dois Minutos de Ódio orwellianos, um poder avassalador que todos tratando por igual, libertando as energias destrutivas próprias da multidão, mas oferecendo simultaneamente o bode expiatório que encarnará todos os males do mundo, equilibra a violência do sistema num quotidiano de estável “normalidade”.

Outro aspecto interessante é o carácter igualitário do processo. Durante os Dois Minutos de Ódio, todos os que odeiam são iguais, vivendo o mesmo momento, sentindo as mesmas coisas, dissolvendo-se no mesmo todo, num uníssono que nem o mais intrépido advogado do ideal colectivista algum dia imaginou ser possível. A razão para isso, naturalmente, é simples: os colectivistas, desde Platão a Rousseau, ou mesmo Marx, tentaram sempre imaginar a génese do uníssono colectivo como residindo na revelação de uma verdade racional, universal, que iluminaria e elevaria o ser humano ao transcendente. O génio descritivo de Orwell em1984” reside em mostrar como esse momento de dissolução no colectivo não decorre do pensar, mas da exaltação própria do sentimento que acompanha o indivíduo quando se imaginando no supremo altar da História.

Aliás, como se sabe, não foram os silogismos lógicos, analíticos e irrefutáveis de Adolf Hitler que lhe conferiram o seu estranho e apocalíptico poder sobre a multidão alemã; pelo contrário, foi a excitação do sonho e do mito, o acenar da salvação utópica e, fundamentalmente, a responsabilização por tudo o que de mal ocorria no mundo naquele elemento estranho à sociedade alemã – os judeus – que, precisamente por configurar um grupo unido, mas estranho, separado, não igual, ainda para pior tendencialmente mais rico e genericamente bem-sucedido, bem como, diga-se, seguindo toda uma tradição milenar de culpa personificada, logrou corporizar na perfeição a figura do bode expiatório capaz de libertar a comunidade dos seus vícios e pecados, num exercício de purificação.

Mas que é a purificação senão a exaltação do igual? Ou seja, da expurgação de tudo aquilo que é estranho e não igual ao grupo? Estranhamente, hoje em dia, num momento em que o valor da igualdade é tão verbalmente exaltado, este carácter xenófobo e maníaco de rejeição da diferença que o igualitarismo encarna tende a passar despercebido – nos dias de hoje, em particular, no triunfo do “politicamente correcto”, que esconde a obsessão com uma espécie de pensamento único. No entanto, é precisamente do igualitarismo e da tentativa de dissipar as diferenças individuais no colectivo – total, igualitário, completo e monolítico – que deriva a violência dos sistemas igualitários: pretender a igualdade entre pessoas desiguais implica impor a igualdade naquilo que é desigual. Ora, a única forma de igualar o desigual é tornar igual. No entanto, tornar iguais homens, ou pensamentos, diferentes, o ideal máximo da criação do “novo homem”, obriga a um processo de reeducação, ou formatação, da natureza humana, coisa que, como saberá qualquer pessoa sensata, é impossível sem ser pela força, manipulação e controlo total – e, segundo Orwell, sem dois minutos de ódio por dia para reequilibrar as coisas.

A sociedade liberal ocidental ergueu-se precisamente como uma barreira contra esta escravidão. Desde logo, defendendo que as comunidades são intrinsecamente diversas e que os processos de harmonização social nunca poderiam ser definidos a priori pelas autoridades. Pelo contrário, uma vez que o carácter igualitário da sociedade reside nas suas leis abstractas, ou seja, na sua base teórica, as sociedades liberais partem de uma igualdade abstracta para uma diversidade concreta na vida social. Já os igualitarismos fazem o processo oposto: partem de uma diversidade abstracta, que rejeitam, pretendendo torná-la igual no concreto, real e particular, através da harmonização social e da força impositora do totalitarismo.

Considerando a natureza humana, essa harmonização nunca foi possível, daí que nos pareçam tão estranhos os Dois Minutos de Ódio que Orwell idealizou como forma de conseguir harmonizar o não harmonizável. No entanto, olhando para o quotidiano das nossas sociedades actuais, os Dois Minutos de Ódio aparecem agora como muito menos absurdos: com o triunfo do ideal da igualdade securitária, tudo o que é diferente já parece ser comummente abominado como uma manifestação automática do bode expiatório causador de todos os problemas que afectem o corpo social.

Durante a pandemia de covid-19, quem não usasse máscara a todo e qualquer momento, ou que discordasse dessa medida que os próprios dirigentes sanitários inicialmente descartaram como irrelevante ou contraproducente, tal como quem não aceitasse uma injecção com tecnologia experimental, não aprovada nem testada pelos procedimentos habituais, com autorização provisória, propagandeada pelas gigantes farmacêuticas desde sempre obcecadas com lucros como sendo a salvação da humanidade, logo foram proscritos como outsiders, perigosos lunáticos, agentes disseminadores do vírus, do mal, da morte, ou seja, do impuro que vem de fora aniquilar a paz social.

René Girard, no seu “Bode Expiatório”, cita o historiador português do século XVII padre Francisco de Santa Maria Ferreyra que, em 1697, descreve um cenário de enorme confusão social, em que as leis não são obedecidas e as hierarquias desaparecem num estado de exaltação social, quando a peste atacou todos por igual, deixando uma sociedade afogada e esquecida no caos indiferenciado do salve-se quem puder.

Girard utiliza o exemplo para explicar que, além da tendência para culpar o bode expiatório pela calamidade que afecta o corpo social, é também a indiferenciação cultural e social que, em pânico, num atomismo amorfo em que todos se comportam da mesma forma, terraplana a natural diversidade cultural e civilizacional que ergue, e mantém, as sociedades. Ou seja, a igualização comportamental conduz à dissolução da pólis numa manada em que todos gritam e esperneiam instintivamente por igual – tal como aqueles súbditos que se aliviam diariamente defronte dos ecrãs a odiar, durante dois minutos, em “1984”.

No entanto, não é na exaltação igualitária e histérica, superficial, abstracta, que se constrói a boa sociedade. Esta deriva da paz, harmonia e cooperação social que os humanos conseguem atingir quando, em liberdade, partilhando valores profundos e sinceros, mesmo que divergentes, por vezes até incompatíveis, descobrem instrumentos capazes, práticos, para resolver os problemas com que se deparam. A manada, bruta, desencabrestada, em assustado movimento, uníssona, pode aparecer como um corpo unido, mas essa união apenas deriva do choque momentâneo impelido pelo medo. Nada pensa ou edifica; pelo contrário, salvo fazer avançar pela força bruta a carroça que traz atrás de si, carregando os donos do chicote e os seus preciosos bens, tudo destrói e consome à sua voraz passagem.

Medo e ódio, duas faces de uma mesma moeda, dois braços armados do igualitarismo – pelo medo se impõe a pretensa igualdade, pelo ódio se controlam os súbditos que se pretende subjugar. Já a civilização não se coaduna com estados de espírito momentâneos; pelo contrário, é olhando o que transcende o quotidiano que se erguem as muralhas da sociedade que vem proteger os seus cidadãos numa vida que se pretende de paz e harmonia social, intergeracional.

Nas páginas finais da “Psicologia das Multidões”, em 1895, Gustave Le Bon descreve também como a indiferenciação exaltada é a característica típica do estertor final das civilizações. Quando os velhos ideais que orientaram a civilização desaparecem, o génio imaterial que ergue e manteve essa civilização desvanece-se com eles, sobrando assim um conjunto de indivíduos desorientados que regressam à sua condição primordial — a multidão indiferenciada, bruta, assustada e, apesar das forquilhas prontas para atacar, extremamente vulnerável.

Hoje, entre a ameaça permanente com que todos somos bombardeados diariamente pelos ecrãs que, hipnóticos e histéricos – o vírus, a guerra, a crise, a doença –, nos rodeiam por todo o lado, e o colapsar dos valores imateriais que nos fizeram enquanto sociedade – a igualdade perante a lei, os direitos, liberdades e garantias –, tudo junto, temos dois processos que se aceleram mutuamente no seu efeito devastador: nem a civilização, com os seus velhos e desprezados valores, nos protege do medo, nem o histerismo motivado pelo medo ajuda a proteger os velhos valores e a velha civilização.

Pelo contrário, progressivamente regressamos ao estado original da multidão. Mais grave ainda, bem comandados pelos ecrãs que nos mostram, ou fingem mostrar, o mundo tenebroso que aparece sempre pronto para nos engolir, mais parece termos aterrado já numa nova civilização, autoritária, manipuladora, orwelliana, onde, supostamente para o nosso bem, acabamos a odiar os bodes expiatórios que sucessivamente desfilam na TV – Passos Coelho, Donald Trump, os não vacinados, agora, os “russos” —, com eles variando o enfoque do nosso ódio, tal como nos Dois Minutos orwellianos, consoante a direcção em que sopre o maçarico mediático.

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