Opinião

Disfunção política

Tiago Mendonça


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A cultura do cancelamento chegou à política. Numa crónica anterior falei da falta de tomates de muitas pessoas para se chegarem à frente no importante combate contra a ditadura do politicamente correto e as malfeitorias que têm sido feitas à liberdade de expressão. Mas, de facto, não estranha que assim suceda: são os próprios líderes políticos que manifestam uma degradante falta de coragem.

Na dita lei dos partidos políticos uma das causas de extinção é a “qualificação como partido armado ou de tipo militar, militarizado ou paramilitar, ou como organização racista ou que perfilha a ideologia fascista”. É com base nesta alínea que uma certa rapaziada e raparigada pretende a ilegalização do Chega.

O primeiro ponto que me merece comentário é que o Chega não mudou. Aliás, se existem mudanças no partido são no sentido de uma maior moderação. Nos debates presidenciais ficou claro que, por exemplo, para a Ana Gomes, o que fazia com que o Chega merecesse a ilegalização em sentido diferente do PNR era a expressão política que o partido de André Ventura hoje tem. Isso ficou clarinho como água nos debates presidenciais. Não se trata, portanto, de uma questão jurídica nem sequer de uma questão de princípios. Trata-se de hipocrisia. O Chega só começou a ser um problema quando começou a granjear o apoio de centenas de milhares de pessoas.

O segundo comentário é jurídico. Penso que está fora de causa que o Chega seja um partido militar (mas já li tantas baboseiras sobre o tema que não meto as mãos no fogo). A consideração do partido de Ventura como fascista deveria obrigar a um regresso aos bancos de escola para estudar o que é o fascismo. Claro que, em Portugal, todas as pessoas à direita do Partido Socialista são fascistas (e mesmo algumas do PS!). É tudo fascismo. Uma conferência que reúne grandes nomes de Direita (e alguns de esquerda) é fascista! Até o Passos era fascista! O fascismo tem traços muito claros. Vamos a um: a intervenção do estado (muitas vezes com obras públicas megalómanas) e o reforço de medidas protecionistas para uma autossuficiência económica. O homem só tem medidas liberais para a Economia! Eu até acho que às vezes excessivamente liberais. Se pegarem numa matriz fascista e num comparativo de ideias do PCP e do Chega não duvidem que mais facilmente o PCP cai no crivo fascista do que o Chega. Não cola. Racismo: nunca ouvi uma declaração racista – pelo menos naquilo que eu penso ser o racismo. Ou seja, a consideração de que existem problemas de integração numa determinada comunidade (podemos concordar ou discordar dessa ideia, claro) não torna o Chega um partido racista.

Em terceiro lugar, apavora-me que sejam os líderes políticos os primeiros a, desculpem a expressão, “molhar a cuequinha” quando têm pela frente um adversário político popular (e para alguns populista). O que eu espero de um grande líder político é que não tenha medo. Que vá para o telhado quando Londres está a ser bombardeada como fez Churchill talvez seja pedir muito, mas, pelo menos, que lutem politicamente! Com ideias! De forma corajosa! Sem mimimi! Não se consegue ganhar a Ventura? É preciso ilegalizar? Ridículo.

Pergunto ainda, qual a efetividade do cancelamento? Como é que se ilegalizam 500 mil pessoas? Prendem-se? A ilegalização do Chega logo levaria à criação de um outro partido, provavelmente mais radical (e com razão porque se trataria do maior atentado à liberdade política em décadas) que recolheria ainda mais votos do que o Chega hoje em dia consegue. A ideia de ilegalizar o Chega é, portanto, uma ideia que além de todos os defeitos que já lhe imputei é bastante estúpida. E tudo isto com o beneplácito da esquerda (e diga-se, de toda a direita) que fica muito caladinha porque fica mal dizer qualquer coisa de positivo de André Ventura. Devem ter medo de ficar contagiados.

Um quinto e último comentário é o de constatar que, uma vez mais, cancela-se e proíbe-se o que não se gosta. É assim que estamos. Chegam-nos notícias do Brasil que querem proibir as batatas a murro e a punheta de bacalhau, depois da L’Oreal ter retirado as expressões de aclaramento dos seus produtos e de incidir sobre o príncipe da Branca de Neve suspeitas de violação. É um mundo deprimente. Em que um bando de cobardolas hipersensíveis procura cancelar as pessoas de que não gostam. Uma ditadura. Não interessa se do lápis azul ou do batom vermelho. Censura. No meu tempo dizia-se: não gostas? Come só as batatatinhas. Não gostam do Ventura? Comam só batatinhas (se elas não ficarem muito ofendidas) ou combatam-no politicamente.

Até para a semana!

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