Opinião

Dever do esquecimento

Luís Naves


Quando tudo muda à nossa volta, a memória é a primeira vítima. Obcecados em interpretar as novidades, pensamos menos sobre as reminiscências da vida. As instituições deixam de olhar para o passado como algo intocável, enquanto caminham amedrontadas sobre o gelo fino dos tempos de mudança. Isto talvez ajude a perceber o motivo de haver hoje tanto esquecimento nas notícias, na política, na literatura.

É um pouco difusa e estranhamente antiga a nossa recordação da época remota em que um telefone acabava numa linha fixa e não cabia no bolso do casaco, quando o povo se dizia muito religioso, quando as pessoas liam todas as suas notícias nos jornais e era possível fumar à vontade em qualquer sítio público. Parece ser um mundo extinto aquele que não tinha auto-estradas nem supermercados impecavelmente iluminados. Ir a uma pizaria era um luxo e desconhecia-se o conceito da massificação: bilhetes de avião baratos, roupa asiática, consumo abundante e turismo acessível.

Às vezes, as memórias até parecem impossíveis e pensamos que são falsas: devem ser exageradas as imagens de horríveis fardas cinzentas dos polícias, cafés da província só com homens, televisores a preto-e-branco, longas viagens por estradas sinuosas, bairros-de-lata, carros sem cinto de segurança.

O país que vivia as últimas ilusões do seu arrastado império teve de mudar muito em pouco tempo. A memória foi a maior das vítimas: esquecemos talvez demasiado, durante o breve instante que dura a chama de um fósforo.

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