Opinião

Desta vez não dá para ignorar o drama de África

Alexandre Guerra


África é um continente esquecido. Apesar das muitas promessas políticas das potências mais desenvolvidas e das inúmeras manifestações de boa vontade por parte dos líderes mundiais, poucas soluções efectivas têm sido dadas aos problemas africanos. Para todos os efeitos, e por mais chocantes que tenham sido alguns episódios da sua história recente, impressionando os cidadãos do mundo civilizado ao verem imagens dramáticas nos telejornais das oito, no conforto das suas casas, a verdade é que, passado o trauma momentâneo, as pessoas esquecem e rapidamente regressam aos seus afazeres. O incómodo é temporário.

Tem sido assim ao longo das décadas e pouco se alterou a partir dos anos 90, apesar da mudança de paradigma do sistema internacional e das novas mentalidades do mundo livre e das democracias liberais. É certo que houve alguns progressos em África, sobretudo ao nível de indicadores relacionados com vacinação, literacia e mortalidade infantil. Mas pouco mais. Politicamente, a instabilidade é uma constante, a economia continua débil, mantendo-se assente em modelos arcaicos e rurais, e nos últimos anos assistiu-se nalguns países a uma espécie de voraz neocolonialismo chinês. A violência é um traço comum a quase todas as regiões africanas, nalguns casos assumindo contornos tribais. E, de tempos a tempos, juntam-se as secas e a fome extrema para adensar o drama. Recordo-me de que, nos anos 80, o mundo ocidental, em gestos de solidariedade para aliviar consciências, ainda se dava ao trabalho de produzir umas músicas ou fazer uns concertos solidários. Hoje em dia, nem isso. A opinião pública internacional remeteu África para o esquecimento total.

Algumas das principais potências e organizações internacionais vão fazendo os mínimos para manter um certo nível de civilidade e de humanismo naquele continente, mas não almejam mais do que isso, porque a verdade é que, na óptica das relações internacionais e da gestão do poder dos Estados, as vidas não são todas iguais e, para Washington ou Bruxelas, uma vida africana não vale o mesmo que uma vida americana ou europeia. Como tal, também os recursos investidos por aqueles blocos são substancialmente diferentes. Este princípio cínico é aceite pacificamente pelas opiniões públicas dos países mais avançados. Olham para o lado, como se nada fosse, desde que os problemas não lhes batam à porta. Tem sido assim ao longo dos anos, com excepção das crises migratórias mais recentes, que têm beliscado (pouco) o statu quo social nalguns países europeus, mas sem provocar grandes alterações nos estilos e hábitos de vida dos cidadãos. Além disso, a imposição de medidas musculadas por parte das autoridades, como vigilância de fronteiras e construção de muros, poderá continuar a garantir o conforto e a ordem que os europeus tanto prezam. Mais uma vez, e apesar de algumas vozes minoritárias mais críticas e audíveis, os europeus parecem conviver bem com as fragatas no Mediterrâneo e com as vedações que estão a ser construídas na Polónia e na Lituânia.

Os europeus e o mundo avançado em geral têm ignorado África, que nunca representou verdadeiramente uma ameaça directa aos modos de vida ocidentais. Nem mesmo as más práticas ambientais que ali se verificam, nomeadamente o recurso ao carvão enquanto fonte de energia, são uma ameaça significativa, já que os principais poluidores a nível mundial se encontram no hemisfério norte, sendo aí, sobretudo, que deverá ser encontrada uma solução. Nem sequer determinados surtos associados a doenças como o ébola ou a cólera, motivadas pelas más condições de saúde pública, perturbaram a harmonia dos países desenvolvidos. Ou seja, nunca se colocou a possibilidade de alguma dessas ameaças ser exportada para o resto do mundo. Até agora.

O surgimento da pandemia que vivemos colocou, pela primeira vez, África como exportadora de uma ameaça directa aos estilos de vida dos países mais desenvolvidos. Não houve essa percepção no primeiro momento da gestão da crise pandémica, na qual as nações mais avançadas estavam focadas, numa resposta imediata às suas populações. Porém, nessa altura, alguns analistas mais perspicazes e previdentes alertaram os líderes poderosos de que África não poderia ser deixada para trás em matéria de vacinação, correndo-se o risco de aquele continente se tornar uma autêntica incubadora de mutações e variantes, atendendo ao facto de o vírus ter campo aberto para se propagar e transmitir exponencialmente. Os avisos foram feitos há vários meses mas, como era África, mais uma vez, os apelos foram ignorados. O mundo desenvolvido olhou para o lado e foi à sua vida. É certo que alguns países cederam vacinas aos países africanos, mas numa escala reduzida e incapaz de proporcionar taxas de vacinação aceitáveis. Foi mais uma operação de public relations do que outra coisa. Em finais de Outubro, a OMS alertava que apenas cinco das 54 nações africanas iriam atingir, até ao final deste ano, o modesto objectivo de ter 40% da população completamente vacinada. Repito: apenas cinco países com 40% da população vacinada. É muito mau, mas o resto é uma calamidade. Quem se der ao trabalho de analisar os números da taxa de vacinação de cada país africano, facilmente perceberá que o mundo tem aqui um enorme problema para resolver.

É tempo de as opiniões públicas dos países desenvolvidos e os seus líderes políticos perceberem que, se nada fizerem de substancial e massivo em relação a África – como historicamente tem acontecido –, iremos andar nos próximos anos entre confinamentos e desconfinamentos, avanços e recuos, sob a ameaça permanente do surgimento de uma nova variante mais perigosa e letal. Pela primeira vez, os problemas africanos entraram com estrondo pela porta adentro das casas dos europeus e das sociedades mais avançadas, e, agora, já de nada serve ignorar e olhar para o lado.

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