Opinião

Desistir dos jovens é desistir do país

Carlos Guimarães Pinto


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Aos 14 anos, como qualquer adolescente com pouco dinheiro e que não percebe o esforço que é preciso fazer para o ganhar, eu não gostava do capitalismo. Sentia uma proximidade musical com o anarcopunk e política com o anarco-sindicalismo. Uma das principais razões para ter escolhido a área económico-social na passagem para o secundário foi, no meu idealismo adolescente, achar que poderia ajudar a montar um sistema alternativo ao capitalismo. Via com atenção os criativos tempos de antena do PSR e fiquei entusiasmado com a fundação do Bloco de Esquerda. À medida que fui aprendendo economia e lendo mais, o meu anarquismo de esquerda transformou-se em libertarianismo muito focado nas questões económicas. A experiência de emigração para o Dubai reforçou este meu lado. Só quem nasce no privilégio de não ter de se preocupar com dinheiro é que consegue ignorar a importância transformadora da liberdade económica na vida de alguém. Chegar a um país sem dinheiro para pagar a renda e caução da casa (foi o primeiro e, espero, último empréstimo que pedi na vida) e sair, poucos anos depois, com dinheiro para comprar uma casa sem recorrer a empréstimo é uma das sensações mais libertadoras que senti.

Os recuos que julgava impossíveis em algumas liberdades individuais e políticas nos países desenvolvidos, assim como a aproximação do poder de forças políticas de cariz autoritário, permitiram-me perceber a importância de não desvalorizar a luta necessária para salvaguardar as liberdades política e individual, colocando-as ao mesmo nível de prioridade da liberdade económica. Acabei a liderar um partido assente nessas três liberdades e a fundar um think tank com o objectivo de as promover.

Do anarcopunk ao liberalismo em toda a linha, houve dois valores de base que se mantiveram constantes: o amor pela liberdade e a desconfiança em relação ao poder. A forma como esses valores se concretizavam em posições políticas alterou-se ao longo do tempo com a maturidade, as leituras, o contraditório inteligente de algumas pessoas e as circunstâncias de vida, mas os valores mantiveram-se constantes. Hoje sinto que o meu pensamento político é mais estruturado do que alguma vez foi e, mesmo assim, surgem-me dúvidas sobre como aplicá-lo em diversos assuntos concretos. Tenho a consciência de que, daqui a 20 anos, discordarei de algumas coisas que defendo hoje, mas vivo bem com isso.

Vem esta autobiografia política de bolso a propósito das declarações pouco estruturadas, até ridículas, de jovens “activistas climáticos”, largamente gozados nas redes sociais. Misturavam tudo, metendo assuntos que têm pouco a ver com o clima no meio das reivindicações, e nem sobre as questões climáticas pareciam perceber muito. Parece evidente que nenhum daqueles jovens tinha um pensamento suficientemente estruturado para articular uma posição política em frente a milhões de pessoas. Mas quem é que, aos 16 anos, teria conseguido articular uma posição política consistente sobre um assunto complexo? Mesmo que, possivelmente, tenham sido instrumentalizados por pessoas mais velhas, é impossível para mim não lhes reconhecer pelo menos a coragem de se exporem publicamente pelo que acreditam (ou julgam acreditar) e apreciar o espírito livre de se rebelarem contra o poder instalado. Com a maturidade, circunstâncias e leituras certas, um dia poderão ver uma evolução e estruturação do seu pensamento, percebendo as nuances dos problemas e tornando-se até menos radicais no apontar de soluções.

Esta evolução só acontecerá se lhes dermos esse espaço, em vez de os acantonarmos a uma trincheira pela agressividade da crítica e pelo enxovalho. Isto não é paternalismo (OK, talvez um pouco), mas sim a noção, por experiência própria, de que ninguém é um produto ideológico finalizado aos 18 anos (nem aos 28 ou 38). Desde que lhes seja dado espaço, contraditório construtivo e instrumentos intelectuais para crescerem, um dia poderão ter um discurso mais estruturado e, acredito eu, mais liberal. Quem diz os jovens “activistas climáticos” diz também outros (comunistas, reaccionários, wokes) que passeiam opiniões chocantes pelas redes sociais para chamar a atenção, apenas para ver essa atenção, por vezes, sair-lhes pela culatra, acabando vítimas de cancelamento mental por enxames de sinalizadores de virtude ansiosos por uma humilhação em grupo.

Ninguém que almeje mudar o país pode fazê-lo sem mudar pessoas e mentalidades. A mudança, em democracia, começa pelas pessoas, especialmente as mais jovens. Criticar de forma construtiva é essencial para ajudar o processo de estruturação. Cancelamentos e humilhações públicas são a melhor forma de entrincheirar ainda mais a opinião pública e manter tudo igual. Os jovens mudam e, com eles, muda o país. Desistir de mudar os jovens é desistir de mudar o país.