Opinião

Desconstruir o tabu da energia nuclear

Alexandre Guerra


O desafio hercúleo do combate às alterações climáticas impõe, entre outras coisas, uma redução substancial a curto prazo das emissões de gases com efeito de estufa, com destaque particular para o dióxido de carbono (CO2) – tema amplamente debatido na recente cimeira COP26, em Glasgow, e que, não obstante alguns passos positivos, não gerou um modelo definitivo para um problema que está longe de ter uma resposta consensual. Uma das questões basilares no actual debate prende-se com a necessidade de as sociedades estarem preparadas para alterarem substancialmente as suas formas de vida e disponíveis para abdicarem de hábitos adquiridos. Isso conduz-nos, aparentemente, a algumas contradições, porque se, por um lado, existe a consciência individual de que é necessário mudar comportamentos, por outro, as pessoas parecem não estar em condições de cederem nos seus confortos sociais e necessidades profissionais, que exigem, cada vez mais, dispêndio energético.

Qualquer especialista nestas matérias dirá que, perante essa realidade social, económica e política, a resposta nunca passará por uma solução milagrosa, mas antes pela combinação de várias medidas e fontes de energia devidamente integradas e sustentadas. Na procura de uma fonte de energia inesgotável e limpa, tem de se ter a consciência de que ainda não há tecnologias perfeitas. Da eólica à solar, da hídrica à geotérmica, das marés à biomassa, todas têm as suas virtudes e defeitos. É por isso que, neste quadro, o nuclear tem obrigatoriamente de ser equacionado e estudado. Por convicção pessoal ou preferência ideológica? Seguramente que não. É sobretudo por necessidade e evidência científica. Há países com forte tradição neste tipo de fonte de energia para a produção de electricidade, como são os casos de França, Estados Unidos, China, Rússia, Alemanha, Bélgica, Suécia ou até mesmo da vizinha Espanha, onde cerca de 20% da sua electricidade continua a ter origem no nuclear.

É preciso também ter em consideração que a tecnologia nuclear para fins pacíficos, nomeadamente ao nível de reactores e sistemas de segurança, tem evoluído muito. É certo que continua a existir o eterno problema dos resíduos radioactivos, mas não deixa também de ser verdadeiro o elevado retorno energético, assim como o reduzido impacto ambiental em termos de emissões e de perturbação no sistema natural envolvente, como, aliás, tive oportunidade de verificar pessoalmente em Maio de 2006, quando, a convite da Comissão Europeia, fui um dos primeiros jornalistas a visitarem a Central Nuclear de Kozloduy, situada no norte da Bulgária, junto à fronteira com a Roménia e nas proximidades do Danúbio. Esta central é a única na Bulgária e uma das maiores do antigo bloco de Leste, originalmente com seis reactores. Na altura, os reactores 3 e 4 tinham acabado de ser desactivados, estando apenas em funcionamento as unidades 5 e 6, com 1000 MW cada uma, que ainda hoje continuam a operar em total segurança, sob rigorosa vigilância da Agência Internacional da Energia Atómica (IAEA na sigla em inglês). Sublinhe-se que um terço da electricidade produzida na Bulgária vem desta central nuclear.

Importa lembrar que nos tempos da Guerra Fria, as centrais nucleares por detrás da Cortina de Ferro permaneceram longe dos olhares indiscretos, desconhecendo-se a forma como operavam ou o estado de conservação do seu equipamento. O acidente de Chernobyl, há 35 anos, alimentou os receios do Ocidente face à segurança das estruturas que albergavam (e ainda albergam) vários reactores nucleares. Com a implosão da União Soviética, no início da década de 90, técnicos europeus e norte-americanos começaram a vistoriar as instalações nucleares dos países que tinham acabado de se libertar do jugo de Moscovo. As inspecções prolongaram-se durante vários anos, com muitos desses países a tentarem preencher todos os requisitos de segurança exigidos. Muitos reactores continuam a operar. Porém, no âmbito do processo de alargamento da União Europeia, a Bulgária, a Eslováquia e a Lituânia tiveram de desactivar oito unidades. Actualmente mantêm-se operacionais dois reactores na Bulgária e quatro na Eslováquia. Cerca de metade da electricidade produzida neste último país vem do nuclear.

No caso concreto da central de Kozloduy – cujas impressões que recolhi no terreno tive oportunidade de publicar na edição de Maio-Julho de 2007 da revista Segurança & Defesa –, teve inicialmente seis reactores, quatro deles entretanto desactivados, embora na altura em que visitei o complexo ainda continuassem sob apertada vigilância por causa do arrefecimento dos respectivos núcleos e do combustível. Como me informou então o director-executivo da central, o calor residual tinha de ser removido do núcleo, sendo que o fuel estava armazenado numa piscina ao lado, suficientemente afastado para não provocar qualquer reacção nuclear. Quando inquirido sobre o que fazer a este combustível, aquele responsável limitou-se a encolher os ombros, sem dar uma resposta conclusiva. Esta continua a ser a principal fragilidade deste tipo de tecnologia.

Kozloduy é composta por três silos, imponentes estruturas de betão armado com duplo revestimento, capaz de aguentar o impacto de um avião comercial. Sob cada silo encontram-se dois reactores. No seu interior, o silêncio reina e o asseio impera. “Tudo é muito limpo”, disse-me uma intérprete na altura, quase que obcecada por sublinhar tal facto. E como também relatei na revista Segurança & Defesa, parecia “um ambiente emocionalmente estéril, relembrando aqueles que alimentam as utopias negativas, onde tudo tem uma lógica de funcionamento autoritário em prol de um bem comum, não havendo espaço para o improviso”. E recupero uma das sensações mais estranhas que tive: “Apesar de este complexo albergar 4500 trabalhadores, fica-se com a sensação de que a gigantesca central nuclear funciona apenas com meia dúzia de pessoas. Não se vê ninguém, ou quase ninguém. A máquina parece controlar tudo. A comparação com os cenários cinematográficos da ficção científica é inevitável.”

Lembro-me que a presença humana se disseminava discretamente pelas salas de comando dos reactores, incluindo os desactivados, que continuaram a exigir, durante bastante tempo, o controlo atento no arrefecimento dos núcleos. No que diz respeito às unidades 5 e 6, em funcionamento, ao todo foram quase 500 milhões de euros de investimento na implementação de 212 medidas para a sua modernização. Disse-me o director-executivo da central que o complexo de Kozloduy era “um dos mais vigiados do mundo” e que, apesar de ser de fabrico soviético, tendo o primeiro reactor sido inaugurado em 1974, em nada se assemelhava à central de Chernobyl. Tudo é diferente, desde o tipo de reactores aos sistemas de segurança. “No debate do nuclear, Chernobyl não é uma boa referência”, frisou na altura Miko Kovachev, antigo ministro da Energia búlgaro. “A tecnologia que estão a usar (em Kozloduy) não é uma tecnologia de Chernobyl.” E, neste aspecto, toda a tecnologia que hoje é aplicada na indústria nuclear encontra-se na vanguarda científica e tecnológica.

Outras das impressões que retive, e que me parecia ser transversal aos países do antigo bloco de Leste, foi o orgulho que tinham no seu programa nuclear. Por exemplo, quando a central encerrou os reactores 1 e 2, a 31 de Dezembro de 2002, essa data adquiriu contornos fúnebres para a população de Kozloduy (cerca de 11 mil pessoas), que directa ou indirectamente estava (e ainda está) ligada àquela central. Aliás, à entrada da sala de comando dos “defuntos” reactores 1 e 2 encontravam-se dois quadros a assinalarem literalmente sua morte. Nem a cruz faltava. Lembro que a referência a esse facto era feita com saudosismo e nostalgia. Mais do que uma questão energética, o programa nuclear era um factor de orgulho nacional. “Muitos búlgaros encaram o nuclear como se fosse o seu projecto nacional. Não têm um programa espacial, mas têm um programa nuclear”, disse-me na altura um jornalista búlgaro.

Porém, hoje, cerca de 15 anos depois da minha visita a Kozloduy, o assunto assume contornos muito além da questão do orgulho patriótico e nacionalista, colocando-se sobretudo no patamar da necessidade. O problema é que o debate sobre esta matéria tende a ser polarizado, o que em nada ajuda na procura de uma resposta equilibrada e racional para fazer face ao imperativo absoluto de se pôr travão a fundo nas emissões de CO2 provenientes de combustíveis fósseis, sobre os quais assentam os estilos de vida das nossas sociedades.

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