Opinião

Desalmar o Chiado

Aline Hall de Beuvink


Há alguns anos que vemos a morte lenta daquilo que caracterizava certos bairros de Lisboa. Lojas históricas substituídas por outras que não têm nem vão ter história nenhuma, iguais a tantas outras por esse mundo fora. Quem não tem saudades dos antigos alfarrabistas que povoavam o Chiado com as suas gravuras, livros, almanaques e as conversas deliciosas de pequenos mundos dentro do mundo da Lisboa antiga? Desapareceram com a velocidade do fa presto. Mas o futuro não será isto: essas lojas sem Zeitgeist também irão desaparecer e ninguém terá saudades. Lisboa viverá um vazio de significado. Veja-se A Brasileira, renovada, com um novo dono. Dá a sensação de estar mais limpa e convidativa. Os preços foram actualizados e o café, que era ao balcão 60 cêntimos, passou para 2 euros. E o doce é só pastel de nata; a riqueza de escolha desapareceu. O que isto pode representar com o turismo será, talvez, compensador. Mas e os locais? Aqueles que moram perto, que iam a este café, que conversavam, mantinham o espírito, ainda cheiravam à Lisboa tradicional e, de certa forma, sem saberem, também eram o que o turista procurava, desapareceram. Aliás, até já nem há o conceito de balcão n’A Brasileira. Isso é passado. Está, irremediavelmente, demasiado turística. O Martinho da Arcada, pelo contrário, soube manter portugueses e turistas. E quando estes se forem, como no auge da pandemia, A Brasileira fará o quê? Um “característico” café com queijo da Serra e um toque de absinto, qual iguaria “predilecta” de Fernando Pessoa? Mais um espaço descaracterizado. Com este processo de desalmar o Chiado, parece-me que nem o poeta lá voltaria.

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