Opinião

(Des)confiança pública: democracias vs. autocracias

Alexandre Guerra


Há uma certa percepção de que a confiança das opiniões públicas nos seus governos democráticos está a degradar-se por causa da gestão política da pandemia. Por um lado, os cidadãos das sociedades democráticas vão desafiando os seus governantes; por outro, os líderes populistas e autocráticos vão aproveitando o momento para reforçar as suas agendas e posicionamento. O “Edelman Trust Barometer 2022”, divulgado esta semana, vem corroborar esta ideia de forma muito cabal, com base na sua habitual metodologia, que assenta em inquéritos mundiais a milhares de pessoas. O propósito deste barómetro, que existe há mais de 20 anos e é levado a cabo pela Edelman, a maior consultora independente de public relations do mundo, é aferir os índices de (des)confiança das opiniões públicas em diferentes países face às suas principais instituições – corporativas, média, ONG e governo.

O barómetro abrange 28 países, incluindo autocracias como a China ou a Arábia Saudita, e mais de 36 mil entrevistas, concluindo que, dois anos após gestão pandémica, quase metade dos inquiridos vêem no governo e nos média forças divisivas da sociedade. No entanto, este resultado deve ser escalpelizado entre democracias e autocracias, porque apresenta nuances importantes. Se, ao nível dos inquiridos em países democráticos, a população “desconfia” (índice de 1-49) ou é “neutra” (índice de 50-59) em relação ao seu governo, já no topo da tabela da “confiança” (índice de 60-100) estão quase só autocracias, como China, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Malásia ou Singapura. Ou seja, pela primeira vez, as autocracias sobrepõem-se às democracias em termos de índices de confiança pública dos cidadãos nos seus governos. A China está no topo da tabela de “confiança”, com um índice impressionante de 83, seguida dos Emirados Árabes Unidos, com 78. Estes valores devem ser enquadrados nos modelos de sociedade destes países, com uma capacidade crítica menos amadurecida por parte dos seus cidadãos e, consequentemente, menor grau de exigência democrática aos seus líderes. Além disso, e segundo explicou Richard Edelman, os valores de confiança na China explicam-se também com as percepções económicas e pelo sentido de previsibilidade incutido pelo governo chinês. Ou seja, diz Edelman, o povo sente que há uma coerência entre aquilo que é dito e aquilo que é feito.

Naquilo que é a relação de confiança entre povo e governantes, estes países autocráticos deverão ter a vida facilitada nos próximos meses para a implementação de eventuais medidas mais rígidas no combate à pandemia. Em sentido contrário, é muito provável que os governantes das democracias venham a ter de enfrentar cada vez mais contestação social, perante a desconfiança crescente que se tem vindo a instalar nas suas sociedades. Países como a Alemanha, a Austrália, os Países Baixos, a Coreia do Sul e os Estados Unidos desceram consideravelmente no índice de confiança de 2021 para 2022. No entanto, em Maio de 2020, muitos dos países democráticos apresentavam índices de confiança (índice de 60-100) nos governos, o que é explicável, na minha opinião, pela primeira resposta imediata à pandemia, num ambiente dominado pelo desconhecido e pelo medo, condições ideais para que as sociedades mais facilmente aceitem políticas e medidas de mitigação musculadas ou até mesmo desajustadas.

Estudos como o “Edelman Trust Barometer” permitem-nos fazer uma leitura devidamente fundamentada na dinâmica que se estabelece entre governantes e governados, numa altura particularmente complexa, após dois anos de gestão pandémica, com as sociedades democráticas a demonstrarem algum cansaço e uma maior resistência às orientações que os seus líderes vão dando. Com maior liberdade, também maior é o espírito crítico e de exigência dos cidadãos aos governantes, o que é natural e saudável em democracia. O importante é que os governantes, chegados até aqui, tenham agora a capacidade de pensar em novos modelos que proporcionem um equilíbrio social entre os desafios de saúde pública e os princípios invioláveis das liberdades e garantias constitucionais.

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