Opinião

Depois da COP26 venha a Black Friday

Jorge Máximo


Como esperado, apenas uma semana após o encerramento da grande Conferência Mundial sobre as Alterações Climáticas (COP26), da divulgação das suas quase escatológicas profecias e das promessas de medidas duras para contenção das emissões de gases com efeito de estufa, a economia mundial regressou à sua normal realidade consumista. Em todo o mundo, a maioria das principais lojas de retalho capitularam perante a inevitabilidade de anunciarem grandes descontos na chamada Black Friday. O objectivo é escoar stocks e vender o máximo possível. E para os que dizem que um dia só não chega, também já existe a Cyber Monday ou até mesmo a Black Week. O que importa é ter a melhor performance comercial em Novembro, para ganhar embalo para o grande mês de vendas do ano, o mês do Natal. Para os comerciantes, é o inevitável “se os outros fazem, então nós também temos de fazer”; para os consumidores, o irresistível “eu até nem precisava mas, como está mais barato, é melhor aproveitar já a oportunidade”.

E assim se move e se faz crescer a economia global. O consumo é a base do crescimento capitalista. Há sempre um bom motivo para incentivar a gastar. Em Agosto foram as férias; em Setembro, o regresso às aulas; em Outubro, já todos adoptámos o Halloween; e antes do mês do Natal, o grande trunfo é a Black Friday – um fenómeno de enorme sucesso em todo o mundo, até nos países muçulmanos, que tem vindo a apresentar crescimentos anuais sustentados e a fazer disparar as vendas comparativamente a um dia comum. De acordo com o site Black Friday Global, em 2018, as vendas médias mundiais no período da Black Friday foram 663% superiores em comparação com um dia normal, tendo havido países, como foi o caso da Alemanha, em que esse crescimento foi superior a 2000% (em Portugal foi de quase 792%).

Mas, como em tudo na vida, há também um lado negro na Black Friday. A dimensão da produção que estimula e da logística de distribuição que exige é responsável por uma enorme pegada carbónica. A maioria dos produtos comprados na Black Friday são gadgets tecnológicos, vestuário e produtos de bazar que atravessam o mundo para chegarem a casa do consumidor final. Com a explosão do comércio digital, a concorrência disparou e tornou mais barato comprar numa grande loja online estrangeira do que no centro comercial ao lado de casa. Um estudo do site Money.co.uk calcula que só no Reino Unido, em 2021, as emissões de carbono produzidas pelas vendas na Black Friday deverão atingir 386 243 toneladas de carbono, o equivalente a 215 778 ligações aéreas entre Londres e Sydney e o peso de 3679 baleias-azuis!

Se é certo que preços baratos são sempre um bom motivo de atracção para todas as gerações, estima-se que a procura na Black Friday seja, proporcionalmente, muito maior nas gerações mais novas, as quais são muito mais propensas e orientadas para as compras online e socialmente dependentes de produtos e novidades que todos querem ter. Um estudo de 2019 da Deloitte estima que a Black Friday atraía 58% da geração Z, 54% dos millennials, 39% da geração X, 37% de baby boomers e 34% dos seniores. Ou seja, muitos daqueles que há apenas duas semanas se reuniram em manifestações nas ruas das principais cidades para gritar, bem alto, palavras de condenação dos exageros poluentes do capitalismo global, que consomem os recursos do planeta e são responsáveis pelas alterações climáticas, não resistiram à tentação da Black Friday para substituírem o telemóvel por outro de modelo mais recente ou comprarem aquela peça de roupa que está agora na moda!

Pode parecer incongruente mas, como explicou um famoso assessor de Bill Clinton, “é a economia, estúpido!” A verdade é que as opções de compra dos consumidores decorrem muito mais dos seus interesses materiais de curto prazo do que de quaisquer questões ideológicas. Podemos continuar a organizar conferências sobre o clima, a aumentar os impostos sobre combustíveis, a exigir que as empresas compensem em árvores a sua pegada ecológica e até proibir o consumo de determinados produtos, mas haverá sempre uma Black Friday. A economia prevalecerá e as pessoas nunca deixarão de continuar a consumir muito acima das suas necessidades essenciais. E assim será, cada vez mais. O barato é irresistível e o ser humano é um animal ambicioso e colector. Está nos nossos genes e muito dificilmente deixará de ser assim. Compatibilizar o crescimento da economia com um mundo mais sustentável é o nó górdio dos dias de hoje, mas dificilmente ele poderá ser cortado apenas com restrições políticas e reivindicações ideológicas. Resta-nos a fórmula de Alexandre: contribuirmos todos para uma economia mais smart.

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