Opinião

Depois da convenção

Carlos Guimarães Pinto


Não deve haver outro partido que gere ressentimentos tão transversais e desproporcionais à sua representação como a IL.

O BE ressente-se da IL pela sua capacidade de entrar na faixa etária mais jovem, pela capacidade de passar a sua mensagem dentro das universidades, algo que até há pouco tempo era domínio do BE. O PCP ressente-se da IL porque nunca houve um partido no Parlamento tão capaz de expor as contradições da sua ideologia, de a expor como totalitária, algo que, por respeitinho, os partidos tradicionais nunca aceitaram fazer. O PAN e o Livre ressentem-se da IL porque vêem no seu sucesso eleitoral a bitola do seu próprio fracasso. O PS ressente-se da IL por ter trazido para o centro da discussão pública a evidência do fracasso da sua governação por comparação a outros países, por fazer oposição com factos difíceis de desmontar, até pela máquina de propaganda mais afinada. O PSD ressente-se da IL pela sua capacidade de ser assertiva nas alternativas, tornando mais óbvia a falta de assertividade do PSD. O Chega ressente-se da IL pela sua capacidade de fazer oposição de forma simultaneamente assertiva e inteligente e por saber que, quanto mais a IL crescer, maior a possibilidade de o PSD abdicar do Chega para um projecto de poder.

Este ressentimento nota-se principalmente nas discussões parlamentares que não passam nas televisões. Um bom exemplo é a forma como toda a esquerda, quando apresenta um discurso mais ideológico, o apresenta em oposição ao “discurso liberal”, e não ao discurso de outro partido qualquer. Isto é particularmente notório no PS e no BE (o PCP continua a meter tudo à sua direita na caixinha dos fascistas ou, nos dias bons, “fascizantes”).

Na convenção deste fim-de-semana vão-se tomar decisões importantes, mas as decisões mais importantes serão tomadas após a convenção tanto por aqueles que a vencerem como pelos que não vencerem. Os que vencerem terão de ter a elevação de cicatrizar rapidamente as feridas de uma campanha interna inevitavelmente dada a maniqueísmos, evitando que o clima de disputa interna se torne o novo normal das relações entre membros. Os que não vencerem passarão pelo derradeiro teste de compromisso pelo partido que tanto declararam em campanha: desejarem e contribuírem para o seu sucesso, mesmo afastados do poder. Será um teste difícil à natureza humana, mas ditará se teremos uma IL mais forte ou mais fraca.

Uma Iniciativa Liberal fraca deixaria novamente as universidades nas mãos do BE, devolveria o respeitinho pela ideologia totalitária do PCP, deixaria PAN e Livre satisfeitos por não estarem juntos no fracasso em resultado de divisões internas, retiraria ao PSD os incentivos a ser mais assertivo nas suas alternativas em vez de esperar que o poder caia de podre no seu colo, deixaria a propaganda do PS ainda mais livre para distorcer factos e estatísticas de “sucesso” e daria ainda mais espaço ao Chega para orientar a insatisfação com os governos PS para o seu projecto totalitário de poder. É importante saber onde estão os adversários.