Opinião

Deixem trabalhar os portugueses

Nuno Afonso


Um pouco por toda a Europa fala-se da terrível necessidade de mão-de-obra. Não há pessoas para trabalharem na construção civil, na hotelaria, na restauração ou na agricultura. Mas será mesmo assim? Será a imigração intensa e desregulada a solução?

Há cerca de um mês conversava com um empresário do Norte que me contava que tinha agendado 62 entrevistas de emprego para um dia, dado estar a necessitar de muitos funcionários após a reabertura dos seus estabelecimentos. Apareceram três pessoas: um jovem venezuelano que não falava português e estava em Portugal há quatro dias; uma jovem portuguesa que, na realidade, só queria mesmo a entrevista para efeitos de fundo de desemprego; e uma jovem brasileira, com experiência na restauração, que efectivamente foi contratada. Explicava-me ele que a maioria das pessoas que trabalhavam em hotelaria ou restauração estão a receber subsídios do Estado e nos fins-de-semana, como têm experiência, fazem casamentos, onde recebem 100 a 150 euros por dia, sem recibo. Este exemplo é válido para qualquer uma das áreas. A verdade, por muito que custe sobretudo à esquerda, é que os portugueses estão a tornar-se dependentes de subsídios e, na bela palavra tipicamente nossa, a usar o desenrascanço para fazerem uns biscates e trabalhinhos por fora. Isto leva a que ganhem o mesmo, ou mais, juntando subsídios e biscates, do que a terem de trabalhar, cumprir horários, respeitar hierarquias e, efectivamente, pagar impostos.

Isto é o que verdadeiramente está a destruir a economia portuguesa e o nosso Estado social. Para combater isto, o que faz o Governo de extrema-esquerda? Abre as portas do país a imigrantes, sejam eles quem forem, venham de onde vierem e com qualquer passado que tenham, sem regular, sem monitorizar e em total desrespeito por quem cá está, que nem voto nesta matéria teve.

Reuni-me na passada semana com uma associação empresarial que, em jeito de conclusão, me disse que do ponto de vista da economia, concordava com as minhas ideias na totalidade, mas que discordava no que concerne à imigração. Porque querem os patrões mais imigração como resposta? O presidente da Associação de Hotelaria de Portugal dizia há dias que deviam ser criados “fluxos de importação de mão-de-obra de países como Cabo Verde e Filipinas”. Porquê? A resposta é simples: capitalismo predatório. Odemira foi o exemplo mais claro de como muitas empresas subsistem da exploração de seres humanos, imigrantes já cá radicados a explorar vergonhosamente compatriotas necessitados, empresas que sabem de tudo mas fecham os olhos e lavam daí as mãos, porque isso lhes aumenta consideravelmente as margens de lucro. E que fique registado: foram o PS e a geringonça (BE+PCP) quem promoveu esta exploração, esta escravatura disfarçada. Foram eles que andaram a passear em Odemira, a tecer elogios a empresas que produzem para exportar com mão-de-obra barata, foram eles quem alterou a lei que permitiu que estas pessoas fossem amontoadas em contentores. Não foi seguramente a direita que eu represento, a que defende os trabalhadores portugueses, em contraciclo com a direita do sistema, que não se importa que os portugueses sejam substituídos em Portugal por trabalhadores estrangeiros e que acabem por emigrar.

Os patrões querem estes imigrantes porque lhes pagam mal, eles não são sindicalizados, não têm laços afectivos no país – nas empresas de limpeza de resíduos, a maioria dos empregados já pertencem a estes grupos –, o que lhes permite estar no Algarve num dia e em Braga no outro, sem reclamarem. O escancarar de portas à imigração não tem razões humanitárias ou sociais – essa é a intrujice que nos tentam vender –, não é seguramente a solução para a crise demográfica pois, com medidas de natalidade adequadas, os portugueses poderiam e quereriam ter mais filhos.

Quem questionou os portugueses sobre o Pacto de Migração? Quem nos pediu opinião sobre o tratado de mobilidade com a CPLP? Quereriam realmente os portugueses as alterações que foram recentemente efectuadas à Lei da Nacionalidade?

Há vários anos consecutivos que a natalidade tem vindo a diminuir; 2020 foi dos piores anos do século mas, fruto da imigração, a população aumentou 0,02%. O número de imigrantes tem crescido acima dos 100 mil por ano, sendo apenas os registados perto de 700 mil. Estas pessoas são exploradas e é também com o seu trabalho que se pagam os subsídios ao resto da população que está em casa porque, por estes valores, não trabalha. A importação massiva de mão-de-obra barata diminui efectivamente o valor da mão-de-obra, o que tornará incomportável para os portugueses (que não vivem em contentores e têm de pagar casa, seguros, taxas e taxinhas de água, gás, electricidade e combustíveis) trabalhar cá. Vai levar a que quem está bem com o seu subsídio por cá fique a recebê-lo e que quem quer melhorar as suas condições de vida e das suas famílias faça o mesmo que estes imigrantes fazem: emigre para um país que lhe dê melhores condições. Consequentemente, estamos assim a empurrar os portugueses para fora do país e a substituí-los por mão-de-obra barata, estrangeira. Lutámos em Portugal nos últimos 50 anos pela literacia dos portugueses, pela educação; estamos a formar pessoas para as deixar sair e a importar pessoas sem formação e que não falam a nossa língua, que estão a diminuir drasticamente os níveis de literacia em Portugal. É urgente criar incentivos a que as empresas se tornem competitivas, mas é também fundamental que os portugueses deixem os subsídios e trabalhem, com condições, com ordenados justos. Não podemos ter um terço do país a trabalhar para os restantes, que com capacidade, com idade e com saúde para trabalhar, nada façam, ou trabalhem por fora sem pagar impostos e recebam simultaneamente subsídios, ou seja, ludibriando o Estado duplamente e fazendo vida disso.

Não pode um país ser competitivo e gerar riqueza se tem 400 mil desempregados registados (fora os que estão a fazer cursos no IEFP e os não registados) e continua a importar mão-de-obra desenfreadamente, promovendo a imigração no estrangeiro. A solução passa pelo apoio real do Estado à economia e esse apoio é feito através do incentivo a que as empresas sejam competitivas, não apenas com apoios financeiros efectivos, mas sobretudo com uma clara diminuição da carga fiscal. É inaceitável que as empresas, sobretudo nesta fase de extraordinária dificuldade e resiliência, continuem a ter de emprestar dinheiro ao Estado, a fazer pagamentos por conta já referentes ao próximo ano, dinheiro que podiam investir na sua dinamização, no aumento da competitividade, ou acautelando o futuro, mantendo reservas que garantissem pagamentos de salários em casos de emergência. É inaceitável que continuemos sufocados em impostos e sem dinheiro quando podíamos colocá-lo a circular na economia, nos serviços. É este o dínamo da economia: a diminuição do peso do Estado e o incentivo à competitividade das empresas.

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