Opinião

Defender a NATO

Diogo Agostinho


Parece impossível que, em pleno século XXI, com uma guerra em plena Europa, ainda seja preciso argumentar em defesa de um projecto de defesa comum. Sim, a NATO ainda tem de ser defendida. E não é apenas na Turquia. Também aqui, em Portugal, numa democracia plural com maturidade de 48 anos, num país que, apesar de periférico, vive sob o chapéu de protecção da NATO, mas temos partidos que, de forma surrealista, atacam essa protecção externa.

Falo do PCP, que se suicidou politicamente, mas também do Bloco de Esquerda. Um partido que começou com posições dúbias aquando do início da guerra, que no manual do BE devia ser uma invasão militar imperialista clara, mas, por artes de leitura da opinião pública, lá cedeu e participou em algumas manifestações a favor da Ucrânia. Mas a máscara caiu.

Catarina Martins veio criticar a expansão da NATO. Que não era a solução. É extraordinário como a líder de um partido com assento no Parlamento de um país democrático vem dizer que países independentes, democracias de há muito, como a Suécia e a Finlândia, não têm liberdade de escolha, ou seja, não são agentes do seu próprio destino. Então mas a esquerda que bate no peito sobre as liberdades critica depois uma nação democrática, soberana e livre por escolher um caminho de aproximação a uma organização como a NATO?

Vamos às bases. Para que serve a NATO? Está escrito na sua página na internet: “O objectivo da NATO passa por garantir a liberdade e segurança dos seus membros através de meios políticos e militares.” Isto não é claro para todos? Isto não é fundamental num mundo em guerra?

Vemos bombas a cair na Ucrânia e vários crimes de guerra a serem cometidos. Vemos cidades destruídas, recebemos refugiados ucranianos em Portugal. Estado e autarquias que se organizam para acolher aqueles que foram expulsos da sua própria terra pela guerra. Claro que isto contraria o discurso, também da esquerda, de que Portugal é anti-imigração. Não somos. Nunca fomos.

E com todo este cenário geopolítico instável e com elevado risco, ainda existem políticos que acham que a NATO é o problema e que não podemos acolher a Suécia e a Finlândia? Porquê? Por irritarmos o sr. Putin com essa acção? Por fingirmos que não existem países com receio de serem invadidos por um país vizinho ditatorial e imperialista? Onde fica a nossa solidariedade? Onde fica o espírito europeu de união? Para o BE, não fica. A Suécia e a Finlândia que se desenrasquem e se mantenham “neutras” e recebam os soldados russos com flores e em aclamação logo que caiam na mira do czar do Kremlin.

Mais do que mandar palpites sobre os países europeus que querem entrar na NATO, podíamos era discutir, por exemplo, a lógica de ainda existirem países com direito de veto no Conselho de Segurança das Nações Unidas, sobretudo quando esses membros permanentes invadem outros Estados soberanos. Não faria sentido essa discussão? Não faria mais sentido questionar porque vivemos segundo a lógica dos anos 40 do século passado, com a China, Estados Unidos, França, Rússia e Reino Unido a deterem o poder de veto no Conselho de Segurança? Porquê? Isso sim, era um tema pertinente e parte de algo há muito falado, mas em que pouco se mexeu: a reforma da ONU.

PUB