Opinião

De capa e espada

Nuno Lebreiro


A consciência será, porventura, o maior mistério que envolve a experiência humana: ainda por definir adequadamente, confunde-se com a vida, em particular a humana, onde, aparentemente, uma e outra convivem de forma necessária. No entanto, apesar do mistério, o processo evolutivo do consciente, desde que começado a ser estudado pelos psico-analíticos, tem-se revelado surpreendentemente fecundo no seu mecanismo essencial: a génese, o amadurecimento e o fenecimento.

Abordar o processo de vida da consciência implica, desde logo, uma história a dois níveis: o particular, o meu e o teu, o de cada um de nós, mas também o histórico, ou seja, o caminho evolutivo ancestral que trouxe a humanidade até aqui e que, sem excepção, desde o útero até à morte, todos nós repetimos num caminho que representa uma acumulação milenar e onde apenas, com sorte, lhe acrescentamos um pequeno grão de areia da nossa própria autoria no final.

No entanto, sendo o processo de evolução da consciência algo partilhado, há então também uma meta-história que norteia todas as histórias: um nível universal, na medida em que é partilhado por todos, e abstracto, pois que consegue representar um processo objectivo, standard, uma espécie de guião, impossível de escape para quem partilhe da condição humana. Esse processo, tal como descrito pelos psico-analíticos, transforma-se então numa narrativa conceptual que resume o ponto de partida, o processo e o telos, ou destino, da acção humana – seja ao nível da pessoa, da civilização ou da espécie.

O ponto de partida da narrativa do consciente é a Grande Mãe, mitologicamente representada pela serpente que se alimenta perpetuamente da própria cauda: o uroborus. A Grande Mãe é o início, o ponto alfa desta narrativa, a harmonia primordial, divina, o paraíso infantil que tudo contém, incluindo o bem e o mal, o princípio e o fim, a criação e a destruição. Na mitologia bíblica, este início revela-se no Paraíso, onde Adão e Eva são criados até que a maturidade representada pela maçã e pela serpente os atire, despojados, no mundo.

A consciência nasce, então, ainda na Grande Mãe, individuando-se no Ego que dará origem ao indivíduo. Conceptualmente, no início, o Ego – a entidade que começa a reflectir –, quando recém-individuado, não se distingue da Grande Mãe: para que se distinga tem de afirmar-se, e para isso tem de assumir uma contradição, uma separação, face à Grande Mãe que o gerou e contém. Eventualmente, essa separação ocorre contra a vontade de ambos: a Grande Mãe não quer separar-se, perder aquilo que lhe pertence, que criou, que é seu, tal como o Ego não quer enfrentar a adversidade do mundo pós-uterino, um mundo pejado de opostos, contradições e tragédia – afinal, ninguém opta de livre vontade por enfrentar as agruras da vida e a inevitabilidade da morte, ou seja, a implacável queda do Paraíso a que a prova do fruto proibido condenou o homem.

Assim, a tendência é de, a cada adversidade, o Ego querer regressar ao conforto do útero materno, primordial. Esse regresso implica o retorno à condição de absoluta igualdade com o que o rodeia, sem conflitos, o completo esbater das diferenças numa conformidade perpétua e permanente com a inacção do útero protector. Do mesmo modo, o afastar-se da origem, ou seja, o mergulhar no mundo, implica o exacto oposto: a diferença, as tensões, os conflitos, o rasgar, a criação, em suma, a responsabilidade da liberdade, da necessidade de ter de enfrentar o mundo. Logo aqui, no primeiro salto mortal do Ego, agora transformado em Herói, encontramos a sua primeira árdua tarefa: a troca do conforto infantil do útero materno pela aventura violenta do embate com o mundo numa peleja que – todos ficamos a saber aquando da nossa própria queda do Paraíso – acabará inapelavelmente na morte.

Aqui há também a registar o falo como símbolo de poder, o único poder que contrapõe o poder supremo, porque primordial, da Grande Mãe. Daí que, historicamente, as deusas dos homens, por representarem a Grande Mãe e para mais evidenciar o seu carácter divino, criavam normalmente sem fertilização: por imaculada concepção. Depois, num momento pós-criação, o falo passou a ser motivo de cobiça, fonte de poder masculino e o símbolo do sacrifício máximo que se poderia oferecer à Grande Mãe: a castração. Desta oferenda que transforma conceptualmente o masculino em feminino, a Grande Mãe aceita o regresso do Ego à sua primordial vontade e influência.

Há, então, na recusa do falo um anseio pelo puro, pelo primordial, mas também pelo infantil, porque representa um retorno ao início ainda sem distinção sexual, ou seja, um regresso ao Paraíso do qual involuntariamente se caiu. Por outras palavras, quando o falo se torna oferenda à Grande Mãe, oferece-se o poder de fecundação e, com ele, a recusa da autonomia do Ego em assumir a sua própria capacidade criadora face à Grande Mãe. A alternativa implica assumir essa capacidade que, no fundo, resume a verdadeira aventura humana: a de criar um espaço para si própria num mundo inóspito e perigoso. A castração simboliza, então, a recusa da aventura, do desconhecido, e a ânsia pelo conforto do útero materno, bem como a abdicação do poder e da liberdade individuais.

A aventura humana – a da consciência – cansa, destrói e mata. Nem todos têm força e vontade para a levar até ao seu final. Quando não o fazem, o processo de amadurecimento da consciência é interrompido. Aqui, isso não significa necessariamente a morte, apenas que o processo de enriquecimento e amadurecimento do Ego cessou e, enquistado, cristalizado num determinado estado, passou a fazer parte do mundo, reflectindo-o na passividade de mais um ornamento, instrumento ou, até, obstáculo para os outros Egos que ainda persistem no seu esforço.

A nossa civilização nasceu, cresceu, afirmou-se e dominou o mundo. Se agora declina e cai ou continua a afirmar-se será uma questão em aberto. No entanto, desta perspectiva, o futuro não parece brilhante. Desde logo, dois pontos simbólicos saltam à vista: primeiro, a recusa do falo, ou seja, a recusa da masculinidade; depois, a perseguição obsessiva pelo ideal da igualdade que, de certo modo, decorre também ela do primeiro ponto. Pelas razões que acima se enumeraram, ambas as características representam um soçobrar face ao chamamento infantil do paraíso primordial da Grande Mãe. A recusa do falo, consubstanciada hoje em dia na ideologia da masculinidade tóxica, representa também a recusa da conquista do desconhecido, da coragem da afirmação perante o mundo, do combate, da discussão, da tensão entre ideias opostas, da afirmação da nossa identidade. Também aqui se insere a recusa do discurso livre, a indignação atávica com as ofensas face ao politicamente correcto, tudo em nome da harmonia, da ausência de conflitos, uma harmonia e uma paz que, para serem conquistadas, implicam por definição a mais pura das inacções: o conforto e a segurança do útero materno, ou seja, o safe space.

Mas daí nasce também o impulso igualitário: os homens, por exemplo, querem-se iguais às mulheres, e estas iguais aos homens, sem diferenças, sejam elas físicas, biológicas, psicológicas. Casas de banho mistas, fardas mistas, uma caldeirada de igualdade onde, além da recusa do masculino, se age em função do esbatimento das diferenças, sejam elas sexuais, sociais, económicas, mentais, psicológicas ou funcionais.

A igualdade do útero materno, por oposição à liberdade plural intrínseca ao mundo que queremos conquistar, acompanhada da irresponsabilidade da desistência, por oposição à responsabilidade individual no processo humano de conquista do desconhecido, assume-se então como o desiderato de uma cultura que desiste. Como vimos acima, no fundo, essa cultura woke que se afirma agora pela rejeição da tradição cultural ocidental mais não quer que “matar” o herói ocidental, visto hoje como bode expiatório do ressentimento que espíritos mais débeis sentem na ausência de capacidade própria para agirem como heróis. Espíritos frágeis, e fracos, preferem o colo maternal, mas, pior, da sua fraqueza procuram justificar uma virtude ao pretender impor essa desistência ignóbil, e esse colo, como modelos de virtude ascética e uma nova moral civilizacional, agora apostada não em construir, ou criar, mas apenas em desfazer e destruir – da preguiçosa, fraca e irresponsável desistência individual pretendem obter uma desistência colectiva que, por ser colectiva, iliba a sua própria fraqueza individual.

Este processo de recusa das características vitais civilizacionais ocidentais representa, pois, um soçobrar face ao chamamento gravítico do caldo primordial da Grande Mãe. Seja por tédio e aborrecimento, seja por subjugação à impulsão destruidora e entrópica que, desde a origem, carregamos dentro de nós, seja por capricho, ignorância ou preguiça – tudo vícios perniciosos que caberia ao herói almejar dominar dentro de si próprio –, estas modas aparentam transportar dentro de si próprias as sementes da derrota, uma derrota interna, psicológica, uma derrota na força e coragem anímica que carregaram esta civilização. Na medida em que foram os nossos princípios civilizacionais que trouxeram a maior e melhor ordem pacífica, tolerante, abastada ao inóspito mundo humano, este processo de desintegração anímica e psicológica não pode deixar de preocupar.

Sobra, então, a dúvida se, perante o caruncho civilizacional da autodestruição, ainda restará no Ocidente a capacidade de regeneração que nos leve para uma nova fase no nosso fabuloso percurso de criação humana, ou se, por oposição, no pântano da fraqueza, o destino colectivo civilizacional será mesmo o de nos transformarmos num bando de fracos emasculados, maricas chorões, infantes mimados, um coro de indignados, histéricos e patetas, ridículos homúnculos, tristes e ignóbeis figurinhas, todos a ansiar pelo colinho primordial da Grande Mãe – e todos indignos dos esforços dos nossos antepassados que, em sabendo eles, imagina-se, chorariam de vergonha perante o opróbrio da sua descendência.

Ainda haverá espaço no Ocidente para heróis que enfrentem o mundo com coragem e orgulho no legado dos seus pais e avós? A resposta será, no entanto, que sim: afinal, que maior heroísmo dos dias de hoje haverá do que resistir, defrontar, lutar contra esse caruncho fascista-igualitarista que corrói e destrói as grandes instituições democratas e liberais do Ocidente? Dessa resistência, e consequente vitória, depende a responsabilidade de conseguirmos legar ainda aos nossos filhos a paz, a segurança e a abundância que herdámos daqueles que vieram antes de nós.

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