Opinião

Davos: entre o medo da recessão e a guerra

Lígia Simões


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Esta semana iniciou-se a 53.ª reunião do Fórum Económico Mundial (WEF) de Davos, que tem o tema “Cooperação num mundo fragmentado”, uma missão cada vez mais difícil que visa procurar soluções para a actual crise económica, energética e de alimentos. Quase um ano após a invasão da Ucrânia pela Rússia, o conflito e os seus efeitos nas políticas mundiais de energia e de defesa ocuparam boa parte dos debates na cidade nos Alpes suíços, coberta de neve e expectativas perante um forte temor de recessão global por parte dos 19 líderes de bancos centrais e 56 ministros das Finanças, bem como cerca de 1.500 líderes empresariais, com mais de 600 CEO de empresas de diversos sectores.

Numa era de múltiplas crises, resultantes do aumento da inflação, do impacto da pandemia de covid-19, da guerra e dos efeitos de eventos como secas, ciclones e inundações, o que se antevê não é bom. O crescimento económico global deve descer para os níveis mais baixos dos últimos dez anos e correremos o risco de ver uma baixa taxa de crescimento a tornar-se cada vez mais normal nos próximos anos. Os motivos são inflação elevada, taxas de juros mais altas, redução dos investimentos e repercussões da invasão russa na Ucrânia.

Ao mesmo tempo, segundo o relatório da ONG Oxfam, 1% dos mais ricos arrecadaram dois terços de toda a nova riqueza desde 2020 – quase o dobro do que 99% da humanidade tinha em termos de nova riqueza durante esse período, enquanto uma em cada dez pessoas em todo o mundo passa fome todos os dias e há uma crise do custo de vida. É com este pano de fundo que a Oxfam pede um aumento dos impostos sobre os mais ricos para reduzir a crescente desigualdade e mitigar os efeitos de uma “policrise” como a pobreza e as alterações climáticas. Diversas preocupações devem nortear as discussões entre os líderes mundiais numa lista de riscos encabeçada pelo custo de vida, abastecimento de alimentos e energia, baixo crescimento e confronto geopolítico. A alta nos preços é mesmo apontada como “principal ameaça” aos países do G20, ainda que o surto inflacionista deva abrandar. Apesar da trajectória descendente, a inflação mundial em 2024 ainda estará claramente acima da média entre 2015 e 2019, não sendo por isso de estranhar que o Banco Mundial tenha revisto em baixa as suas previsões de crescimento mundial para 2023, antevendo que seja de 1,7%, contra anteriores 3%. E que o crescimento económico na zona euro desacelere em 2023, caindo em estagnação – um abrandamento natural, disse Mário Centeno em Davos, onde deixou uma nota de optimismo ao apontar que pode escapar à recessão. Pela primeira vez desde a década de 1970, o equilíbrio é frágil, com crescimento e inflação movendo-se em direcções opostas, exigindo doses cada vez maiores de resiliência.

Paira no ar um certo desespero antecipado (de empresas e famílias), o que nos deve fazer soar todas as campainhas de alarme para enfrentar os desafios globais mais urgentes com a confiança na capacidade de impulsionar soluções voltadas para o futuro, perante os desafios globais de uma nova década marcada por incertezas e fragilidades. Davos é a oportunidade de funcionar como faúlha para a sua ignição.