Opinião

Dançar com a ‘realidade’ e combater a corrupção

Naíde Müller


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Ainda acreditas na humanidade?

Foi assim que um familiar reagiu este Verão quando, num jantar de família na Beira Baixa, apresentei o tema da minha tese de Doutoramento e os objetivos da 1ª Edição do PRÉMIO TÁGIDES: Pessoas que nos inspiram no combate à corrupção, uma iniciativa organizada pela associação All4Integrity: #libertemomeupaísdacorrupção da qual faço parte. Basicamente, aspiro a que os ativistas por direitos humanos comuniquem melhor e conquistem legitimidade para operar na esfera pública. Ativismo, neste contexto, implica uma ação que vai além daquilo que é convencional em nome de uma causa e o meu, bem-intencionado, familiar questionava-se como é que chego aos 40 anos a acreditar que posso mudar o mundo.

De acordo com a análise mais recente da associação Transparência e Integridade (TI-PT), Portugal desceu três lugares no Índice de Perceção da Corrupção de 2020, a pontuação mais baixa de sempre. Sobre os julgamentos e perceções sociais, Walter Lippmann na sua célebre obra “Opinião Pública” (1922) argumentou que os seres humanos são chamados a tomar decisões sobre questões complexas, mesmo não possuindo conhecimento razoável sobre elas, o que impõe uma interpretação da realidade de acordo com a perspetiva parcial, possivelmente ingénua, que se possui da dita realidade. Se os portugueses acreditam (confirmamos isto facilmente pelos comentários que circulam offline e online sobre o tema da corrupção) que as instituições são ineficazes e que sistema democrático está cada vez mais viciado para favorecer os mesmos de sempre, é natural que não tenham predisposição para procurar mudanças sociais que identifiquem, controlem e corrijam este tipo de práticas criminosas (julgáveis legalmente ou não). Estão assim reunidas as condições mais férteis para - como vimos no debate das eleições autárquicas entre candidatos à Câmara de Lisboa - que o tema da corrupção seja introduzido de forma desastrosa pelos populistas populares da nossa praça capitalizando politicamente o descontentamento das pessoas.

Os direitos humanos vieram instituir fundamentos legais à emancipação, justiça e liberdade, sendo a sua negação uma afronta para com a dignidade humana. Como recordou Soromenho-Marques (2015) já se fala num estrato de direitos humanos que comtemple os direitos dos animais e do ambiente, os direitos das mulheres, dos homossexuais e transsexuais e os direitos dos doentes com SIDA. Apesar deste enquadramento ser raro nos abundantes debates sobre o combate à corrupção e a promoção de uma cultura de integridade em Portugal, esta é uma questão de defesa de direitos humanos prevista na Agenda 2030 das Nações Unidas (objetivo 16 /Meta 16.5).

As violações sistemáticas de direitos humanos no âmbito do poderoso fenómeno da corrupção, são alimentadas por uma máquina mediática (com salutares exceções) viciada no drama sensacionalista e chocante. Os mais de dez anos de assessoria de imprensa e quatro no parlamento, muito próxima das dinâmicas político partidárias portuguesas, foram esclarecedores sobre o lema predominante nas redações de que as boas notícias ou os debates respeitosos não são notícias.

Mas se queremos travar os autoritarismos alimentados por sedutoras respostas fáceis de consumir e replicar, precisamos sofisticar as interpretações que fazemos e oferecemos sobre a realidade num ambiente digital absurdamente veloz e feroz. Organizações internacionais experientes na abordagem estratégica à defesa e promoção dos direitos humanos, como é o caso do International Civil Society Centre, da JustLabs e da OpenGlobalRights, defendem que, apesar de ser desafiante para um movimento de direitos humanos dedicado a expor abusos, a comunicação baseada na esperança é o caminho com potencial para melhores resultados. No início do seu “Guia para comunicações baseadas na esperança” a OpenGlobalRights explica que “a esperança é uma estratégia pragmática, informada pela história, por especialistas em comunicação, neurocientistas e pela linguística cognitiva e que pode ser aplicada a qualquer estratégia ou campanha”. Ao basearem as suas comunicações nos valores que defendem e nas suas visões do mundo, as comunicações dos ativistas baseadas na esperança “são um antídoto para debates que parecem constantemente estruturados para favorecer os seus oponentes”. Esta abordagem à comunicação também permite aos grupos de ativistas um planeamento de ações que definam a agenda em vez de reagirem constantemente a eventos externos.

O relatório de 2018, Hidden Tribes, do projeto de investigação More in Common, reforça que o cenário dos media tradicionais acentua os conflitos e minimiza a solidariedade existente na sociedade. Por isso mesmo, afirma ser necessário “encontrar um terreno comum para neutralizar as divisões ampliadas nos ecrãs, com histórias de contato humano e envolvimento respeitoso que destacam as maneiras extraordinárias como [as pessoas] nas comunidades locais constroem pontes e não paredes, todos os dias”. Os relatórios de inovação 2019 e 2020 do International Civil Society Centre e da JustLabs fornecem estudos de caso e reforçam esta necessidade de se mudarem as narrativas e estratégias de comunicação em torno das lutas por direitos humanos, para abordagens de comunicação positiva e/ou baseada no humor e na sátira social.

Faço esta viagem de ideias desde o jantar deste Verão na Beira Baixa até aqui para apelar à ação. A 1ª Edição do PRÉMIO TÁGIDES: Pessoas que nos inspiram no combate à corrupção, está até ao dia 30 de setembro a convidar os/as portugueses/as - em Portugal e pelo mundo - a nomearem pessoas que os/as inspirem na promoção de uma cultura de integridade e no combate à corrupção através do site criado para o efeito (https://www.premioanticorrupcao.site/). Temos um júri de especialistas que muito nos orgulha pela diversidade, pluralismo e trabalho realizado neste âmbito, temos parceiros inspiradores dispostos a colaborar em torno de um ideal comum e esperamos que o número de pessoas que nos inspiram continue a crescer tanto quanto o número de portugueses/as que andam por aí a imaginar e a criar um país melhor. De qualquer forma, pergunto-me sobre qual seria a resposta do público se estivéssemos a apelar para se nomear o pior que temos sobre corrupção em Portugal.

Muitas pessoas dizem-nos que não conhecem projetos/pessoas inspiradores nesta área. Uma resposta reveladora da falta de conhecimento das nossas comunidades sobre o que está a acontecer e quem são os atores sociais e os projetos que, de forma direta ou indireta, se destacam na promoção de uma cultura de integridade. Conhecemo-los/as sob o ponto de vista afetivo ou da intriga, mas não conhecemos a substância da sua obra. E isto vem reforçar a necessidade de termos um Prémio desta natureza em Portugal que estimule e qualifique os precursores de uma cultura assente nos princípios da integridade e da transparência.

Estrategicamente a All4Integrity, um movimento, apartidário e da sociedade civil, que conta com dezenas de voluntário/as está a tornar-se numa incubadora de iniciativas e programas de prevenção/combate à corrupção e de desenvolvimento de uma cultura de integridade em Portugal com ramificações interdisciplinares muito fortes. Tenho muito gosto em fazer parte desta equipa que se prepara para premiar as boas práticas e contribuir para estimular um debate informado, simbolicamente apoiado nas ninfas do Tejo a quem Camões pede inspiração para compor a sua obra e gostava muito, claro está, que fossemos mais a nomear pela positiva!

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