Opinião

Cristina Ferreira tem de desaparecer

Raquel Costa


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Cristina Ferreira vai ficar para a história não só da televisão, mas também do país. Uma mulher, sozinha, conseguiu dominar, ao longo de dois anos consecutivos, a atenção mediática, ao ponto de o seu nome ser sinónimo de TV. Mas - e tal como já aconteceu no passado com Herman José - Cristina aproxima-se daquilo a que se costuma chamar travessia no deserto. E as travessias no deserto não são necessariamente más quando são escolhidas, e não fruto das circunstâncias. Quando são involuntárias, podem destruir indelevelmente uma carreira.

Há um ano, mais precisamente a 17 de Julho, a apresentadora anunciava, de forma inesperada, a sua saída da SIC. À semelhança do que tinha acontecido em 2018, sucederam-se as ondas de choque. Mas se, em 2018, a saída da TVI foi globalmente percepcionada como algo positivo, o seu regresso à casa onde nasceu profissionalmente foi noticiado, comentado, analisado e escrutinado de forma negativa, muitas vezes (injustamente) pejorativa. Para isso contribuiu o facto de, desde o primeiro minuto, não ter sabido dominar a narrativa. O regresso à TVI, embora tivesse querido fazer passar a mensagem bucólica de um regresso à “casa-mãe”, foi adjectivado de ganancioso, traiçoeiro, desleal. Não que o tivesse sido, mas essa foi a percepção pública.

Cristina regressava não apenas como apresentadora, mas como directora e como accionista da Media Capital. Como dona. Como proprietária. Como tendo o controlo. E já se adivinhava que, neste país tacanho, tão pouco habituado a mulheres em cargos de poder, o que se seguiria. Não controlando a narrativa, Cristina Ferreira também não conseguiu controlar os humores do povo. O povo, que a amava (e ainda a ama), já não queria vê-la com a mesma ânsia que quis ao longo de mais de uma década na TVI e de quase dois anos na SIC. E os resultados estão à vista: os três programas que conduziu na estação de Queluz de Baixo (“Dia de Cristina”, “All Together Now” e “Cristina ComVida”, este último ainda em exibição ao final da tarde) não foram formatos ganhadores. Muito pelo contrário. Tiveram percursos aquém do esperado, sobretudo depois dos resultados titânicos que havia conquistado na rival de Paço de Arcos. Com “Cristina ComVida”, expectavelmente, a aproximar-se do fim (hipoteticamente terminará no final deste mês), a directora de Entretenimento e Ficção da TVI tem um dilema pela frente: ou regressa na rentrée com um novo formato (e é-me muito difícil olhar para o que ainda é possível fazer de novo em televisão e encaixar Cristina lá) ou retira-se durante uma temporada. Ou insiste, impondo-se a um público que está cansado de a ver, ou tem a sabedoria de parar para pensar e exercer as funções de directora. Embora seja prematuro, existem já escolhas em antena que são um bom prenúncio daquilo que Cristina Ferreira, enquanto directora, consegue fazer. A novela “Festa é Festa” espicaça a até então líder incontestada “Amor Amor” (SIC) e o reality show “O Amor Acontece” que, não batendo “Quem Quer Namorar com o Agricultor”, se revelou uma lufada de ar fresco neste tipo de formatos (graças ao excelente casting e à parceria feliz entre Maria Cerqueira Gomes e Pedro Teixeira). E no que toca às audiências anuais, a TVI encurtou a distância em relação à SIC: em Junho de 2020, a estação de Queluz de Baixo registava 14,6% de share, contra os 20,5% da SIC. Fechou Junho deste ano com 17,3%, contra 20,4% da SIC. Um bom augúrio, que tem de ser gerido, talvez mais nos bastidores e menos no pequeno ecrã. Agosto é o mês em que os canais generalistas entram em velocidade de cruzeiro, preparando a programação que será exibida na rentrée. Sabe-se que, na TVI, haverá o regresso do “Big Brother” e, na SIC, possivelmente a segunda temporada de “Hell’s Kitchen” ou, a fazer fé nos mentideros wikipedianos, a terceira temporada de “Casados à Primeira Vista”. O certo é que, pelo menos aparentemente, não há lugar para Cristina Ferreira na rentrée. Saberá a apresentadora retirar-se temporariamente para trás das câmaras, esperando que o telespectador sinta saudades suas? Em Setembro saberemos.

Ponha os olhos nisto:
“É Urgente o Amor!”

Catarina Furtado tem genuinamente fé na humanidade e essa crença está bem espelhada no seu novo programa. O formato da RTP1 relata histórias de superação e oferece uma oportunidade a familiares de celebrarem a vida e as conquistas dos que amam. De forma comovente e emotiva, mas sem cair em clichés de chachada emocional. Catarina é a anfitriã perfeita do programa perfeito para encararmos 2021 com um sorriso.

Nem vale a pena:
Repetições na TVI

“Doce Tentação”, “Fascínios” e “Os Batanetes” de madrugada. “Mulheres” ao final da noite e “A Única Mulher” à tarde. “Detective Maravilhas”, “Campeões e Detectives” e “Inspector Max” ao fim-de-semana. São quase quatro horas por dia de enlatados que a TVI usa para compor a grelha de programação. Tudo bem que nem sempre há orçamento para conteúdos novos, mas o que é demais é moléstia.

Para ouvir:
“Ten Percent Happier”

Em 2004, o pivô da ABC Dan Harris teve um ataque de pânico em directo. Desse momento de constrangimento, sinal de uma depressão não diagnosticada e consumo de drogas, o jornalista criou o movimento Ten Percent Happier (10% Mais Feliz), em que a meditação é o ponto de partida para conversas sobre saúde mental. O livro e, depois, o podcast deram origem a uma plataforma onde se encontram guias e cursos de meditação.

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