Opinião

Como matar o seu marido

Luís Naves


A senhora Nancy Brophy é autora de novelas românticas e teve imaginação suficiente para escrever um ensaio que tinha por título “Como Matar o Seu Marido”. O marido de Nancy, que era professor de culinária, foi assassinado a tiro na sua cozinha, em 2018, e o procurador de Portland achou que o título do ensaio era significativo, apesar de ser mera prova circunstancial de haver ali um crime planeado.

Há outras provas ditas circunstanciais. Foi mesmo reunida uma pequena colecção de indícios. Uma das histórias que a autora andava a escrever envolvia uma arma comprada em peças separadas nos leilões online, tal como a acusação considerou ter acontecido no homicídio. Nancy comprou peças separadas (faltava uma decisiva, que nunca apareceu), mas explicou em sua defesa que o fizera como parte de uma investigação literária.

A investigação literária é hoje parte essencial do processo criativo. A literatura contemporânea investiga tudo. É realista, bebe factos como se fosse jornalismo vintage.

Por incrível que pareça, não existe neste caso de Portland uma arma do crime, mas apenas pedaços. Aqui, juntam-se outras circunstâncias críticas: Nancy foi associada ao local do homicídio por simples proximidade, pois a sua carrinha passou perto da cozinha onde o marido foi assassinado. A senhora reconheceu ter circulado na zona, mas disse que estava a fazer uma investigação para uma novela romântica.

Depois há a questão do seguro. Existe normalmente um seguro de vida, como no filme “Pagos a Dobrar”, de Billy Wilder. O vendedor de seguros apaixona-se por uma mulher casada, vende uma apólice com dupla indemnização em nome do marido e, claro, organiza um acidente mortal. Obra-prima de 1944, com argumento de Raymond Chandler, baseado numa novela policial de James M. Cain inspirada num caso policial verdadeiro. O crime foi semelhante ao que fascinou recentemente Portugal, envolvendo um triatleta, seguros de vida e um casal de amantes. Realidade, ficção, depois, outra vez, realidade.

James M. Cain é um dos nomes mais subestimados da literatura americana. Era jornalista, tornou-se escritor compulsivo, teve êxitos iniciais, mas foi sempre um pouco desprezado pelo sistema literário, devido à popularidade das obras e à ligação a Hollywood. Escreveu outro romance famoso, “O Carteiro Toca Sempre Duas Vezes”, com várias adaptações ao cinema, incluindo o clássico italiano “Obsessão”, de Luchino Visconti.

Mas isto é uma digressão fútil. O caso de Portland só faz sentido com seguro de vida, portanto, mais próximo de “Pagos a Dobrar” e do caso do triatleta. O marido vivo é menos rentável do que o marido morto, situação que os procuradores geralmente associam a crime.

A prova circunstancial (Nancy era a única pessoa que podia ter matado e lucrar com isso) assegurou a condenação. Os seguros são um clássico, embora aqui falte o amante. A situação bizarra de crime com seguro e sem amante lembra a história do sr. Rudolf Steinherz, de 52 anos, natural de Kecskemét, na Hungria, um comerciante de vinhos falido que, em 1931, encomendou a sua própria morte a um assassino profissional, para a viúva poder recolher o seguro de vida.

A prova circunstancial do amor de Steinherz pela viúva só foi conhecida devido ao excelente trabalho profissional da polícia húngara, que identificou o homicida (um pobre, ainda por cima comunista), que confessou ter sido contratado pelo morto. Até o tenente Columbo teria dificuldades neste caso.

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