Opinião

Combater a doença rara chamada tumor cerebral

Miguel Trigo Carvalho


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No Dia Mundial do Tumor Cerebral, assinalado a 8 de junho, é fundamental combater os medos associados e lembrar que esta é uma doença rara, com sintomas comuns, mas que pode ser detetada e tratada com ajuda médica especializada, graças aos avanços tecnológicos.

Toda a temática relativa à patologia tumoral está associada a um sentimento assustador e os tumores do sistema nervoso central têm uma aura especialmente sombria, não tanto pela sua frequência, mas sim pelos seus efeitos. De facto, os tumores do sistema nervoso central são doenças raras sendo que a probabilidade de se ter um tumor cerebral é muito inferior a 1%. No entanto, são situações com elevada mortalidade e morbilidade, condicionando os doentes, muito frequentemente, a uma elevada dependência.

Os tumores do sistema nervoso central são massas de células que crescem dentro do crânio ou coluna podendo destruir ou comprimir as estruturas nervosas. A maioria tem origem no cérebro e na sua substância cinzenta.

Um aspeto característico dos tumores cerebrais é que os sintomas que lhe estão associados são sintomas muito comuns. O exemplo mais paradigmático é a dor de cabeça. A cefaleia é um dos principais problemas de saúde a nível mundial, mas só uma minoria dos doentes com dor de cabeça é que terá um tumor cerebral. Os sinais de alarme para se iniciar um estudo dirigido ao despiste de lesões tumorais cerebrais será o desenvolvimento de um défice neurológico, como alteração da visão, alteração da linguagem, paralisias ou a ocorrência de uma crise convulsiva num doente sem história de epilepsia. Na presença destes sintomas é fundamental procurar ajuda especializada para um diagnóstico precoce.

Embora não existam testes de rastreio deste tipo de tumores facilmente aplicáveis às populações, a sua identificação pode ser conseguida através de exames de imagem como TAC ou Ressonância Magnética que são de fácil acesso.

Aquando da identificação de um tumor cerebral é importante inicialmente classificá-lo, porque os diferentes tipos de tumores têm diferentes tratamentos e diferentes prognósticos. Para os classificar é necessário habitualmente uma cirurgia que poderá servir para realizar uma biópsia ou a remoção total da lesão.

O cérebro comanda todo o organismo desde os batimentos cardíacos ao dedilhar de uma guitarra e, encerra em si próprio a personalidade individual de cada um, pelo que se compreende que a cirurgia para remoção de lesões neste órgão seja algo de temível e desafiante.

No entanto, salvo raras exceções, é a extensão da remoção durante a cirurgia que tem mais impacto no sucesso do tratamento, pelo que tem havido muito esforço no desenvolvimento e aprimoramento das técnicas cirúrgicas. Hoje em dia realiza-se cirurgia guiada por imagem, a neuronavegação, para se visualizar com detalhe a localização das estruturas anatómicas e a sua relação com a lesão a remover. Utiliza-se também monitorização funcional intra-operatória com a qual se consegue identificar as áreas funcionais do cérebro, a área motora ou a área da linguagem, sendo para isso necessário realizar cirurgia com o doente acordado. Também se utilizam, em alguns casos, substâncias especiais que são administradas ao doente e que se fixam no tecido tumoral, que são fluorescentes sob luz ultravioleta pelo que, durante a cirurgia, e utilizando este tipo de luz, se pode distinguir com maior clareza o tecido normal do tecido a remover.

Uma vez classificado o tipo de lesão, prossegue-se então com os tratamentos complementares adequados a cada tipo, que podem incluir Radioterapia ou Quimioterapia, ou os dois em conjunto. É importante procurar equipas neurocirúrgicas especializadas e apetrechadas com recursos técnicos diferenciados, unidades de Cuidados Intensivos especializados e serviços de Neuro-oncologia e Radioterapia diferenciada.

A cirurgia para a remoção de tumores do sistema nervoso central é tecnicamente exigente e pode requer técnicas especializadas, mas a integração do doente numa equipa multidisciplinar na qual haja diálogo constante entre os diferentes intervenientes é fundamental. Os avanços tecnológicos permitem que, hoje em dia, se realizem cada vez mais cirurgias deste tipo permitindo remoções mais alargadas e com maior segurança para os doentes, contribuindo para um melhor prognóstico e mais sobrevida livre de doença.

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