Opinião

CMTV, a origem de todos os males da humanidade

Raquel Costa


2021 vai a pouco mais de meio e a CMTV lidera de forma destacada as audiências do cabo em Portugal, com 4,3% de quota de mercado. Em termos de comparação (e embora o canal do grupo Cofina esteja na mesma categoria dos canais de notícias), SIC Notícias tem 2,1%; TVI24, 1,3%; e RTP3, 0,7%. O que se pode deduzir destes números? Não sendo eu socióloga nem académica da área dos média, apenas posso aferir que a CMTV é o canal de cabo preferido dos telespectadores portugueses.

Sempre que existem casos que dominam por completo o espaço mediático, como aconteceu na semana passada com a detenção de Luís Filipe Vieira, existe um foco muito maior, uma análise mais microscópica do que é feito pela CMTV. Os rodapés do canal ganharam há já algum tempo honras de meme nas mais variadas plataformas digitais, sendo reproduzidos ironicamente ou arrasados, consoante o olhar mais ou menos benfazejo do internauta.

Tudo isto para chegar à questão central: parece que, aos olhos de alguma opinião pública, a CMTV ou não faz jornalismo ou é uma máquina destruidora daquilo que deve ser o jornalismo televisivo. Mais: parece que, aos olhos de uma certa elite, só existem duas formas de ver a CMTV - ou irónica, com propósitos humorísticos, ou destruidora, para lhe atribuir depois a culpa de todos os males da humanidade.

Ora, eu proponho uma terceira via: ver a CMTV por aquilo que ela oferece - informação e entretenimento. Pode parecer que estou a glorificar o canal ou que estou a ter uma visão romantizada do jornalismo muitas vezes apressado, truculento e tablóide que é praticado pelo grupo Cofina. Mas não. Tendo a acreditar que as pessoas que vêem a CMTV são suficientemente inteligentes para lhe atribuir a importância que tem. Ou seja, o público não é estúpido, ao contrário do que muitos iluminados com nojo de povo (“ai que horror, pessoinhas nos cafés com a CMTV ligada!”, pensam eles enquanto vêem o canal às escondidas) tendem a achar.

O segredo do sucesso em crescendo da CMTV não está nos oráculos ridículos, não está nas acesas discussões futebolísticas que parecem ser feitas para sketches do YouTube, não está sequer no foco, muitas vezes desproporcionado, no crime: está na proximidade. O canal de cabo do grupo Cofina, tal como o “Correio da Manhã”, veio ocupar um lugar deixado vago pelos outros meios de comunicação social, noticiando o que acontece fora dos grandes centros urbanos, onde também é Portugal e onde existe gente que é tão gente como a que vive em Lisboa e no Porto. Essa proximidade gera confiança no telespectador, que sabe que, se a automotora descarrilar em Oliveira de Azeméis ou uma matilha de cães atacar uma manada de vacas em Arouca, é bem possível que, mais hora menos hora, a notícia apareça na CMTV, com direito a directo e tudo. Deve o jornalismo reduzir-se a isso? Não. Mas também é disso que é feito o jornalismo. Basta olhar para o outro lado do oceano e perceber o que noticiam as estações locais de televisão. Spoiler alert: mete muitos acidentes de viação, histórias de interesse humano e faits divers.