Opinião

Cidade Eterna

Teresa Nogueira Pinto


A primeira vez que lemos um grande livro não se repete. Podemos regressar a ele vezes sem conta, mas a experiência será outra, necessariamente diferente. Só que há momentos (raros) em que nos é dada a oportunidade de viver uma coisa única como se fosse a primeira vez.

Foi o que aconteceu quando mostrei aos meus filhos a “Pietà” de Miguel Ângelo, a “Escola de Atenas” de Rafael, as esculturas de Bernini. Quando lhes contei a história de Rómulo e Remo e da loba que os resgatou (na mitologia romana, como na tradição cristã, há inveja, fratricídios e rios onde espreita a salvação: é a natureza humana, que não muda). Quando andei com eles sob o ocre e a luz de Roma (que rivaliza com a de Lisboa), os levei a almoçar ao familiar Borgho Pio, a jantar ao sempre boémio Trastevere, a passear na Piazza Navona e à loja de brinquedos onde, há 30 anos, também eu fiquei maravilhada. Foi o que senti quando rezámos junto do túmulo de São Pedro e de São João Paulo II.

Na sua teimosa e imponente indisciplina, Roma educa os seus visitantes. Há barulho e muito improviso, filas desordenadas, carros e motas que ainda reinam, hegemónicos, sobre peões por vezes atarantados. A história e a beleza pesam-nos. E compreendemos, gratos, o quão pequenos somos.

Roma continua igual, ou ainda mais bonita. Não há máscaras nem regras absurdas. Ninguém quer tomar conta de nós, zelar pela nossa segurança, fazer do nosso bem-estar a sua prioridade. O que me espantou foi só a intensidade desse símbolo dos nossos tempos — hordas de pessoas com telefones em riste, vendo tudo por uma câmara em vez de a olho nu. (Pergunto-me, alguma vez irão rever aquilo?)

Roma não é uma cidade smart. É gloriosamente eterna.

PUB