Opinião

César apunhala Bruto, que engole a lâmina

Leonardo Ralha


Esta foi a semana em que o jornalismo português perdeu um dos seus mestres. António Ribeiro Ferreira teve uma longa e rica carreira, destacando-se enquanto chefe de redacção de “O Independente”, mas antes e depois deu o seu melhor em muitos outros jornais. E escreveu notáveis artigos de opinião, tendo como uma das suas marcas a referência ao “sítio cada vez mais mal frequentado” que dizia ser o nosso país.

Já instalado na grande redacção da eternidade, onde decerto pode fumar - até porque os malefícios do tabaco prescreveram -, só podemos imaginar o que pensaria e escreveria Ribeiro Ferreira, com indignação sorridente, perante o desnorte governativo que marca a actualidade nacional.

A divulgação do despacho do secretário de Estado das Infra-estruturas, Hugo Santos Mendes, que definia “procedimentos relativos ao desenvolvimento da avaliação ambiental estratégica do Plano de Ampliação da Capacidade Aeroportuária da Região de Lisboa”, revelou uma solução complexa, em que a Portela coexistiria com o “transitório” do Montijo daqui a quatro anos, sendo que em 2035 Alcochete passaria a ser o aeroporto internacional de Lisboa.

Há que reconhecer que tudo isto parecia “mal frequentado”. Uma das decisões mais estruturantes do futuro de Portugal veio a público enquanto o primeiro-ministro se encontrava fora do país, e nas vésperas do arranque do congresso do PSD que marca o início da liderança de Luís Montenegro, com quem António Costa disse publicamente querer chegar a um consenso. Mesmo as declarações do habitualmente respaldante Marcelo Rebelo de Sousa, que apontou a necessidade de “perceber os pormenores políticos, jurídicos e técnicos” antes de fazer comentários, representavam um sinal de que isto poderia ser mais do que a maioria absoluta a tirar partido dessa prorrogativa para desviar atenções da crise na saúde e retirar oxigénio mediático ao maior partido da oposição.

Mesmo assim, o ministro das Infra-estruturas, Pedro Nuno Santos, foi ao Telejornal da RTP1 na quarta-feira, Disse que “era preciso descomplicar”, defendeu que Montenegro “colocou-se de fora” e ainda realçou que não informa o Presidente da República “de todas as decisões que vamos tomando no Ministério”.

Perante isto, reverteu-se um dos mais célebres textos de Shakespeare e desta vez César apunhalou Bruto, através do comunicado aguçado com que o gabinete de António Costa revogou o despacho. Sem exigir a demissão de Pedro Nuno Santos pela manhã, alegando estar fora do território nacional, chegado a Lisboa convocou-o para a residência oficial e explicou-lhe os termos humilhantes que seriam exigidos para se manter em funções.

Sendo os motivos de Costa shakespearianos, pois apunhala um ministro conhecido pela recorrente exorbitação do seu poder, como Bruto fez a César nos idos de Março, Pedro Nuno Santos aceitou engolir a lâmina. Quando sair agora seria a melhor forma de se posicionar para suceder a quem obviamente não o vê como herdeiro.

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