Opinião

CDS: sobre o contorcionismo político forçado

Pedro Rebelo Tavares


No processo de oposição interna, Francisco Rodrigues dos Santos conseguiu demonstrar duas coisas – que soube marcar posição em todas as decisões acertadas na vida do Partido e que soube, habilmente, encurralar a sua oposição interna na defesa de todas as posições erradas e muitas vezes contraditórias entre si.

Opinei no passado, a respeito do CDS-PP e no rescaldo da putativa mas malograda candidatura à liderança do Partido por parte do militante Adolfo Mesquita Nunes, que este só estaria disposto a candidatar-se a meio do mandato da atual Direção nacional, em virtude de, mais perto do final do mandato, Nuno Melo já estar disponível.

Vivíamos já nessa altura um clima alegremente disputado no Partido. A ala expressivamente derrotada no Congresso de Aveiro tinha iniciado no dia imediatamente seguinte uma campanha interna de ódio à atual Direção com o único objetivo de criar epifenómenos que, sob o pretexto de “crises internas”, permitissem escamotear a legitimidade democrática oriunda dos resultados eleitorais inequívocos e convocar um Congresso antecipado.

Nos dias que correm, pode já dizer-se sem pejo que falharam redondamente. Vitória após vitória em Conselho Nacional, a Direção de Francisco Rodrigues dos Santos manteve-se firme a trabalhar em prol do país, não obstante todas as condicionantes e obstáculos que foram sendo pavimentados.

Quem vaticinava que a relativa juventude do atual Presidente do CDS-PP traria consigo impreparação veio encontrar, ao invés disso, uma mente extraordinariamente capaz de pensar a política e de levar o Partido a bom porto no meio de inúmeras pressões internas e externas, com uma maturidade invejável.

No processo de oposição interna, Francisco Rodrigues dos Santos conseguiu demonstrar duas coisas – que soube marcar posição em todas as decisões acertadas na vida do Partido e que soube, habilmente, encurralar a sua oposição interna na defesa de todas as posições erradas e muitas vezes contraditórias entre si.

Como exemplo disto temos assistido a muitas das figuras de proa do nosso Partido a tomar necessariamente posições antagónicas às da atual Direção, sob pena de, ao não o fazerem, serem obrigados, para mal dos seus pecados, a reconhecer a assertividade, a pertinência, o trabalho bem feito e, pior do que isso, o sucesso da estratégia, das decisões políticas e da visão de quem está ao leme.

A armadilha patente na lógica de que só defendendo o oposto desta Direção existiria, afinal, espaço para uma verdadeira oposição, foi-se cerrando ao redor destas figuras. Algumas delas, porventura, ainda não terão percebido o perigo. Ainda não terão percebido que, ao defender tudo e o seu contrário, ao terem em vista somente o fim e não os meios, revelam de forma “clarinha e transparente”, a qualquer auditor externo, interesses pessoais profundos e totalmente alheios aos interesses do CDS-PP.

Foi assim que assistimos a uma oposição que defendia a recusa de apoios parlamentares que permitiram ao CDS governar em parceria a Região Autónoma dos Açores e a uma oposição que, na véspera das eleições Presidenciais, defendia que o CDS deveria avançar um candidato próprio em vez de apoiar o candidato de direita vencedor.

Foi igualmente assim que assistimos a uma oposição que, em benefício de interesses solitários, se posicionou num primeiro momento contra o projeto de coligação com Carlos Moedas e, num segundo momento, manifestou o seu desagrado por, após tal tomada de posição, não ter sido integrada nos termos que estritamente desejava nesse mesmo projeto.

É também por isso que hoje assistimos a uma oposição que, depois de ter tentado obter um Congresso antecipado com Adolfo Mesquita Nunes, vem agora encabeçada por Nuno Melo, mas com os mesmíssimos protagonistas, reclamar por o Congresso ter sido marcado demasiado rapidamente.

A mesma oposição que no dia seguinte, ao aperceber-se que poderiam existir legislativas antecipadas caso o Orçamento de Estado não fosse aprovado, vem agora defender, para gáudio dos entusiastas de contorcionismo circense, que o mesmo Congresso que estava a ser marcado com demasiada pressa não pode ser adiado, apelidando-o de “chapelada”.

Há quem diga que em política vale tudo porque a memória do eleitor é curta. Não sou apologista dessa ideia. Acredito que na política, como em todas as coisas, as ações, decisões e posições deixam lastro. Que a credibilidade também se mede, entre outras coisas, pela coerência do que se defende em cada momento e dentro de cada contexto.

Ao demonstrar que, mais do que o bem do CDS-PP, a preocupação é defender tudo e o seu contrário e lavar toda a roupa suja que for preciso para assumir o poder a tempo de escolher os protagonistas para as legislativas (talvez os mesmos?), esta oposição interna não demonstra merecer o apoio dos militantes, mas sim o mesmo esgotamento político que consumiu o Partido e o conduziu em Aveiro a um imperativo de mudança.

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