Opinião

Cascais

Tiago Mendonça


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Carlos Carreiras é um autarca modelo. Tem feito um trabalho notável na Câmara Municipal de Cascais e avança para o último mandato com mais força pela gestão da pandemia. Conhece muito bem o município e não é conotado com a impopular direção nacional do PSD. É um candidato muito forte e que parte com todas as condições para revalidar a maioria absoluta. Mas...

O PS tem condições para ter um resultado mais forte do que nas últimas eleições (onde não chegou aos 30%). Alexandre Faria é um bom candidato. Líder do Estoril-Praia (regressado à primeira liga) é alguém que conhece profundamente o concelho de Cascais e que tem experiência autárquica. Se o PCP cair em Cascais e perder o vereador, o Partido Socialista (com o PAN a apoiar – que teve 4,56% dos votos nas últimas autárquicas...) pode muito bem conquistar o quinto vereador. É até bem provável que isso aconteça. Não sendo previsível que o Bloco chegue à vereação, ficaríamos num cenário de 6-5 na Câmara.

Mas Carreiras tem outro problema: uma direita forte como nunca em Cascais. Mesmo que muita gente que vote Chega e IL, acabe por votar em Carreiras, até pelo mecanismo de voto útil, a verdade é que sendo partidos novos, à procura de afirmação, de elegerem pela primeira vez vereadores e deputados municipais, contam com uma fidelização diferente do que sucederá daqui a algumas eleições. E se acho complicado que a IL consiga eleger um vereador (embora não impossível), Ventura teve nas presidenciais 14,53%. Com metade disso, pode eleger um vereador.

Podemos chegar à noite eleitoral com um cenário de 5-5-1 (PSD, PS e Chega) ou de 5-4-1-1 (PSD, PS, PCP e Chega). Seja como for Carreiras arrisca-se a ter em Cascais o que me parece uma inevitabilidade no país: coligação à direita com o Chega. Mais: a Assembleia Municipal não é controlada pelo PSD. E se já não é, ainda menos será, com o Chega a eleger mais que um deputado municipal – pelo menos dois – e a IL a eleger outro deputado municipal. Eventuais perdas (1 do PCP, 1 do BE, 1 do PDR) devem beneficiar o PS e, claro, os partidos em ascensão (Chega e IL).

Muito, muito interessante!

Oeiras

Continuando na Marginal, Oeiras é outro combate interessante. Isaltino Morais tem a maioria absoluta e até a poderia reforçar sem a força do IOMAF de Paulo Vistas. O Partido Socialista vai com Fernando Curto e luta pelo segundo vereador que me parece bastante possível – ficou a escassos votos de o conseguir. O PCP talvez consiga segurar o seu vereador, o mesmo com o PSD – uma candidatura ao nível da anterior. Os dois vereadores de Vistas, podem ser distribuídos pelo PS e, talvez, pelo Chega. A maioria de Isaltino parece-me menos em risco do que a de Carreiras mas continuará minoritário na Assembleia Municipal. E aqui vamos ver que posições vão tomar a IL e o Chega – que elegem deputados – e podem ser decisivos para fazer passar orçamentos e outros diplomas importantes.

Sintra

Basílio Horta parte de uma maioria absoluta (6 vereadores) contra 4 do PSD e 1 do PCP. Na Assembleia Municipal, tal como em Cascais e Oeiras, não dispõe de maioria absoluta mas tinha um parlamento municipal de esquerda o que pode sofrer aqui algumas alterações. Ricardo Baptista Leite é o candidato do PSD, um político que está “na moda” e que, passe a crueza do termo, beneficiou com a pandemia tendo em conta a sua área de formação que o levou a ter um palco mediático que não poderia ter sonhado. Sabe que em Cascais, depois de Carreiras, virá Miguel Pinto Luz e aceitou o desafio de ir por Sintra. Politicamente, eu teria preferido aproveitar a onda pandémica, e resguardar-me para desafios futuros quando a Direita voltar ao poder do que ir agora travar um combate autárquico ainda por cima fora do habitat natural. Mas percebo que em política não se pode aceitar apenas os desafios que se pretende. Não acho que Baptista Leite tenha condições para fazer melhor que os 4 vereadores, e acho até que se o conseguir é um bom resultado. O PCP, julgo que conseguirá segurar o seu vereador...mas não prometo. Duas curiosidades: em primeiro lugar, saber se a IL elege aqui um deputado municipal. Não é território muito favorável para os Liberais, mas, talvez, com o método de Hondt acabem por conseguir. Em segundo lugar, o Chega, tem aqui campo para ter um resultado estrondoso. Metade do resultado de Ventura nas presidenciais permite eleger um grupo parlamentar de 3 deputados municipais – roubando um ou dois ao PCP e eventualmente “expulsando” o PAN do parlamento municipal. Conseguirá? Ou até fará mais que isso? Não sei se o BE aguenta o segundo deputado – pode ficar para o PAN ou até para a IL. Outra hipótese para o Chega é a eleição de um vereador. A quem retira? Pode retirar a qualquer um. Podemos ter assim um cenário de 6-3-1-1 (PS, PSD, Chega e PCP), 6-4-1 (PS, PSD e Chega) ou 5-4-1-1 (PS, PSD, Chega e PCP). Parece-me este o cenário menos provável, mas, mesmo que assim fosse, o PS contaria com o PCP para a gestão municipal. Basílio Horta deve ganhar as eleições, possivelmente com maioria absoluta e com condições de governabilidade interessantes.

Loures

Se em Cascais, Oeiras e Sintra antevejo a continuidade, com maior ou menor dificuldade, dos presidentes de câmara, em Loures a coisa é muito diferente. O PCP, de Bernardino Soares ganhou a Câmara com mais 4,5% que o PS e após um resultadão do PSD de... André Ventura. Mas perdeu a Assembleia Municipal, elegeu menos que o PS. A governação comunista aparece desgastada em contraste com o PS e depois existe a conjuntura nacional que é claramente favorável (aos dias de hoje) ao PS e desfavorável ao PCP. O candidato do PS, Ricardo Leão, é o atual presidente da assembleia municipal e tem uma notoriedade local (em especial na parte mais oriental do concelho) bastante relevante. Sem Bernardino Soares, apostava as fichas todas no PS. Com Bernardino Soares, julgo que ainda é cedo para uma tomada de posição. Penso que vai ser taco-a-taco. Mas em qualquer cenário é colocado o problema da governabilidade. O PSD, nunca elegerá os três vereadores que conseguiu e está a lutar (muito!) para segurar o segundo vereador. A candidatura do PSD é de um desconhecido na grande maioria do concelho (presidente de uma pequena freguesia do norte de Loures) e a estrutura aparece fragmentada, cansada e até agora com uma campanha fraca. A dúvida é se o PSD elege 2 vereadores ou, se o choque é total, e elege apenas um. Quem beneficia com a queda do PSD? O Chega claro. Penso que tem um vereador garantido (Bruno Nunes, ex deputado municipal no Concelho pelo PPM) e até pode chegar aos dois ultrapassando o PSD o que seria notícia nacional. Cenários possíveis: 4-4-2-1 (PS – PCP – PSD – Chega) ou a mesma repartição mas com vitória comunista (PCP – PS – PSD – Chega). Em ambos os casos o PSD irá a correr dar a mão ao vencedor e fazer uma coligação rosa-laranja ou repetir a vodka-laranja do mandato 2009-2013. Mas se o cenário (improvável, diga-se) de 4-4-2-1 (PS ou PCP – Chega – PSD) surgir então o jogo muda e a governabilidade da câmara pode ficar em perigo. Um outro cenário poderia ser o Partido Socialista conseguir o quinto vereador, o PCP manter os 4, e depois o PSD e o Chega um vereador cada, ou, o PCP conseguir exatamente o mesmo. Em ambos os casos, o PSD viabilizaria a câmara. Na Assembleia Municipal, antevejo um grupo parlamentar para o Chega com 2 ou 3 deputados (lista igualmente forte à Assembleia Municipal liderada por uma figura muito relevante no Concelho – Manuela Dias que foi presidente de uma das freguesias mais populosas). O PSD se conseguir ter 5 já não seria nada mau. O Bloco segura, mas acho que o PAN e o CDS podem desaparecer. Um desses deputados será para a IL (tem essa ambição) e o outro pode ser o terceiro do Chega. Motivos de interesse não faltam: o concelho que lançou Ventura, a hipótese do Chega ultrapassar o PSD, a chance de existir troca de partidos de poder com o PCP a perder força para o PS, enfim, todos os ingredientes para uma boa noite eleitoral.

Até para a semana!

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