Opinião

Carta aos meus filhos

Desculpem, meus filhos. Nós não conseguimos criar as condições necessárias para vocês terem um país em melhores condições.

Manuel Soares de Oliveira


Gostaria de escrever uma daquelas cartas aos meus filhos com vários conselhos do género “os teus melhores momentos ainda estão por vir” ou “deixa que a tua luz brilhe”. Mas confesso que não tenho jeito para coach. Infelizmente, nunca serei um Gustavo Santos da parentalidade.

Por isso, uma carta aos meus filhos teria de ser um enorme pedido de desculpas. As minhas desculpas. A minha geração falhou e vai deixar-vos um país em pior estado do que vocês merecem. A vossa geração só pensa em emigrar. Não encontra condições para viver em Portugal. Não há maior atestado de falhanço do que termos a maioria dos jovens a quererem emigrar. Na verdade, eles não querem emigrar. Eles precisam de emigrar.

Desculpem, meus filhos. Nós não conseguimos criar as condições necessárias para vocês terem um país em melhores condições. Não fizemos o esforço necessário para mudar, fomo-nos adaptando ao miserabilismo e, ao longo do caminho, desistimos.

A geração anterior à nossa viveu sonhos de uma sociedade melhor e mais igualitária mas, no fim, limitou-se a garantir os direitos adquiridos para si sem se preocupar com quem viesse a seguir. Manifestaram-se muito pela democracia, mas fizeram tudo para monopolizar os direitos e as conquistas.

Acabou por ser a geração mais conservadora de sempre. Batiam no peito, alegando serem muito progressistas mas, no fundo, lutavam para que se mudasse o menos possível. É a geração dos direitos adquiridos.

A minha geração deveria ter lutado mais contra esta situação, mas não conseguimos ou não tentámos o suficiente. Deixámos o país em banho-maria nos últimos 20 anos e, agora, tudo definha à nossa volta.

A educação piorou, tanto que quem pode escolhe uma escola particular. Mesmo os governantes que juram amor eterno à escola pública têm os filhos em escolas particulares.

A saúde tornou-se antidemocrática. Quem tem dinheiro vai a um hospital privado e quem não tem desespera numa lista de espera. Somos dos países com maior percentagem de pessoas com seguros de saúde. Neste momento, já são cinco milhões com um sistema qualquer de seguro de saúde. O povo sabe que o Serviço Nacional de Saúde (SNS) não funciona e só uns poucos crentes é que ainda acreditam no nosso modelo. E mesmo muitos dos que defendem publicamente o SNS vão a consultas no privado. A hipocrisia tornou-se a norma.

A carga fiscal continua a subir e, brevemente, o salário mínimo será equivalente ao salário médio.

Falhámos em toda a linha. Apontem-me uma área em que o país tenha evoluído positivamente nos últimos 20 anos. Deveríamos ter lutado mais? Com certeza. Mas o que fazer quando a maioria do povo vota em partidos que nada prometem para lá de manter o statu quo? Quando nos acomodámos?

As eleições são dominadas pelos reformados, funcionários públicos e outros interessados na mama do Estado. É matematicamente impossível ganhar uma eleição contra esta gente. É um bloco conservador, somente interessado em garantir os seus direitos adquiridos, sem a mínima preocupação com as gerações mais jovens. O que resta a um jovem senão emigrar? Não há casas, não há salários atractivos, não há esperança.

A geração dos meus filhos que me desculpe um dia. A minha geração deveria ter lutado mais. Não deveríamos ter sido condescendentes com os direitos adquiridos por alguns, em prejuízo de todos.

É o país que deixamos. Um país de onde todos sonham emigrar, onde já não acreditamos que algo vá mudar, governados por um bando de pilha-galinhas interessados somente em garantir o seu.

É o país que deixamos. Um país sem fibra moral, prisioneiro de uma justiça que não funciona e onde cada um tenta apenas sobreviver.

É o país que deixamos. Onde o Estado não é uma pessoa de bem e é temido por todos. Sucumbimos à máquina estatal que fomos deixando que eles construíssem. Uma máquina que precisa de todos os nossos impostos e que pouco deixa para os serviços essenciais do Estado social.

Os meus filhos que me desculpem. Fomos todos cúmplices do estado a que chegámos. Cada filho que emigra é um atestado de incompetência à minha geração.