Opinião

Carta aberta de agradecimento a Marta Temido

Gaspar Macedo


Quero agradecer a Marta Temido porque hoje mostrou aos portugueses aquilo que o Governo a que pertence realmente é: no país que tem testemunhado demissões em bloco atrás de demissões; onde mais de 400 profissionais saíram do SNS desde o fim do estado de emergência, com denúncias de abuso de poder e exploração; onde um primeiro-ministro tem o desplante de dizer que organizar em Portugal uma final da Champions, a meio de uma pandemia, “é um prémio para os profissionais de saúde”; onde é cada vez mais claro que as decisões e preconceitos deste Governo são responsáveis pelo caos cada vez mais caótico nos hospitais, nos centros de vacinação e na estratégia de combate à pandemia; neste mesmo país onde há uma falta crónica de médicos e meios de saúde acessíveis, a ministra decidiu que o verdadeiro problema é “a falta de resiliência dos profissionais de saúde”. Afinal, a culpa é da falta de esforço dos médicos e dos enfermeiros.

Em seis anos de governação, nunca vi ou ouvi nenhuma das principais figuras deste Governo assumir a culpa sobre o que quer que fosse: afinal, o caos na resposta aos incêndios foi apenas culpa dos sistemas de comunicação; a falta de transparência na reconstrução das casas foi só culpa de um ou dois vereadores; o caos na resposta às cheias foi culpa dos peritos; o encobrimento e silêncio forçado sobre o espancamento de um imigrante pelo Estado, por parte das chefias, foi culpa apenas de dois seguranças; a falta e desperdício dos meios do Estado é culpa do Governo anterior; e a cereja no topo do bolo (para não referir muito mais), até o atropelamento de um português pelo carro de um ministro é, afinal, culpa do atropelado.

Numa altura em que um povo inteiro pede mais uma vez liderança, uma ministra, um primeiro-ministro e um Governo inteiro voltam a responder-nos com “a culpa não é do Governo, a responsabilidade não é nossa, é dos outros, é daqueles que no último ano fizeram os maiores sacrifícios para combater esta pandemia”.

Fica só a minha surpresa por ver tanta gente surpreendida. Fica só a esperança que seja desta que os portugueses percebem que, numa altura crítica para o futuro como esta que vivemos, não podemos dar-nos ao luxo de continuar a pôr o país nas mãos daqueles que não querem liderar: querem apenas governar as próprias carreiras políticas, com lágrimas de crocodilo pelo meio, porque quem lidera sabe assumir as culpas.

Aos profissionais de saúde digo apenas que a verdadeira prova da vossa nobreza não está apenas no que fazem, mas sim porque continuam a fazê-lo. Mesmo que exaustos, desrespeitados, esquecidos, maltratados e mal ouvidos, vocês continuam na linha da frente. Resta-nos tirar daí quem apenas está para alimentar o ego.

Por isso, obrigado.

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