Opinião

Caça à cantora lírica

Luís Naves


A história mundial está repleta de exemplos de histeria de massas e de episódios em que as multidões perderam o controlo. A cruzada popular de 1096, por exemplo, que produziu um rasto de sangue ao longo do seu caminho para terminar em massacre nos Balcãs. A febre da dança de 1518, em Estrasburgo: centenas de pessoas puseram-se a dançar sem motivo até morrerem de cansaço. Há quem diga que a doença matou 15 pessoas por dia, até desaparecer misteriosamente. As mortes podem ser lendárias, mas a dança existiu. Terá sido histeria em massa ou intoxicação alimentar? Ninguém sabe, mas há várias teorias. Estes casos desafiam a explicação. Em 1962, na Tanzânia, houve uma epidemia de riso sem graça nenhuma. As pessoas desatavam a rir e não paravam. Riam até cair para o lado. As pessoas ganham medo absurdo a palhaços ou supostos fantasmas, conseguem ver objectos voadores não identificados a circular no céu. As fobias provocam incidentes homicidas: súbitos ataques a minorias, julgamentos de bruxas, pânicos, caos e revoluções. No auge do terror estalinista, durante o regime soviético, houve episódios de pessoas a denunciarem os seus melhores amigos (e até familiares). Denunciavam e eram imediatamente detidas, confessavam sob tortura as coisas mais bizarras e depois eram fuziladas ou enviadas para o Gulag. Num clima de paranóia, em que todos eram potenciais espiões, denunciar um amigo era a única hipótese de sobreviver, mas aplicava-se o argumento oposto: se sabia que o seu amigo era espião, devia ter falado antes; aliás, ao falar, apenas demonstrou que sabia e que era cúmplice. A lógica distorcia. Todos eram inocentes, não havia espionagem, mas a partir da denúncia também não havia recuo, apenas culpa, e o crime era a proximidade. São famosas as sessões de aplauso a Estaline, em que os primeiros que parassem de bater palmas podiam ser presos à saída da sessão. Todos aplaudiam, olhavam à volta, ninguém parava, podiam estar assim quase uma hora, enquanto o tirano sorria; a onda de entusiasmo não tinha limites, as mãos doíam, os braços começavam a vacilar; continuar era existir, mas os músculos cediam e a fraqueza de uns era a vida dos outros. Era como a dança de Estrasburgo, mas a aplaudir. Não se pense que as loucuras e a culpa uniforme são o exclusivo do horrível passado. O crime por associação também existe em sociedades avançadas e liberais. A cantora russa Iulia Matochkina foi envolvida num destes episódios alucinados do presente. Oriunda do famoso Teatro Mariinsky, de Sampetersburgo, foi contratada pela Metropolitan Opera de Nova Iorque (Met) para cantar numa produção de “Rigoletto”, de Giuseppe Verdi. Soube-se agora que Matochkina esteve a milímetros de ser despedida, por ter escrito uma mensagem de rede social a felicitar o maestro Valeri Gergiev pelo seu aniversário. Gergiev é um maestro de fama mundial que, sendo amigo de Vladimir Putin, se recusou a condenar a invasão da Ucrânia, o que lhe valeu ser afastado de todos os compromissos no Ocidente. O crime de felicitar pelo aniversário foi perdoado com magnanimidade, mas a cantora sabe que não deve prevaricar mais. A polémica faz pensar nos piores cogumelos do século XVI ou nos aplausos de uma hora a tiranos. Matochkina não tem opiniões políticas conhecidas e canta numa produção de “Rigoletto”, que se estreou em 1851 e nada tem a ver com a Ucrânia. A história é demasiado idiota: perdoar a alguém que felicitou alguém pelo aniversário, culpada de associação a outro artista subitamente considerado tóxico a propósito de uma cultura de histeria colectiva que se instalou nas nossas vidas, uma caça às bruxas em que se cancelam cantoras líricas simplesmente por falarem em russo e cantarem em italiano.

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