Opinião

Ave UEFA morituri te salutant

Jorge Máximo


Os relatos imaginários da Roma antiga referem que os gladiadores, antes de iniciarem os seus combates, saudavam desde o centro da arena o imperador romano com a famosa declaração “Ave, Ceaser, morituri te salutant (“Avé, César, os que vão morrer saúdam-te”). Era a confissão de um sacrifício pessoal em nome de um interesse maior. O entretenimento da grande Roma e da população romana que enchia Coliseus ávida para ver sangue e lutas até à morte. Um entretimento que se tornou também um dos mais importantes e dinâmicos setores da economia romana. 2000 anos depois já não há gladiadores nem combates mortais em arenas, mas há uma nova indústria de entretenimento que se alimenta da paixão incontrolável dos que vivem onde antes se situavam as fronteiras do antigo império Romano. Já não há um Ceaser a quem todos se sacrificam ou prestam vassalagem, mas há uma entidade suprema por muitos venerada e a quem até os mais poderosos obedecem. Essa indústria é o Futebol Profissional, essa entidade é a UEFA.

Na semana passada, o Porto foi o palco do mais importante evento anual da UEFA, a final da Liga dos Campões. Para a UEFA, como seria de esperar, foi um sucesso organizacional onde tudo correu bem. Tudo o que ela desejava foi alcançado. Publico nos estádios, cidade ao dispor dos seus patrocinadores, isenções fiscais nos rendimentos auferidos, policiamento exclusivo, etc... De outra forma não teria havido final em Portugal. Com diz o povo na sua imensa sabedoria “Manda quem pode, obedece quem deve”. E Portugal obedeceu à UEFA. Durante 1 semana, o Porto foi um “offshore” de exceções num país confinado que ameaça com multas quem vai à praia sem máscara ou limita a atividade de cafés isolados em concelhos do interior do país. Os portugueses assistiram e perguntaram tão estupefactos como indignados: Então já não há problema? Então, e nós? Tenham calma, olhem que tivemos um retorno económico de 50 M€ disse o presidente da Câmara Municipal do Porto!

Sou dos que defende e reconhece o elevado impacto mediático e retorno económico dos grandes eventos de futebol, mas há limites e barreiras éticas dais quais não podemos abdicar, sobre pena de alienarmos moralmente os princípios fundacionais em que se baseiam os nossos valores democráticos. Se outros com maiores capacidades não o fazem, não será porque não podem. É mais porque não querem. E isso também nos deve fazer pensar sobre as nossas escolhas.

Sedeada num confortável e conveniente cantão suíço, a UEFA é hoje uma organização global de direito privado que vale 3.5 mil milhões de euros de receitas por ano, mas para os quais apenas paga menos de 1 milhão de impostos por ano (menos de 0,02%). É também um dos mais importantes e poderosos centros de negócios e lobby institucional na Europa no qual gravita e efervesce uma rede tentacular de interesses muitas vezes associados a paraísos fiscais, branqueamento de capitais e outra criminalidade económica e financeira. As suspeitas de corrupção são recorrentes e, com Platini, até já chegaram ao topo da organização. Mas a UEFA, tal como Caeser, está acima de tudo.

Em 2014, enquanto autarca em Lisboa, fui responsável pela coordenação municipal de 2 iniciativas que envolveram a UEFA. A decisão sobre a eventual candidatura da cidade em acolher alguns jogos do Europeu de 2020 (entretanto adiado para 2021 em decorrência da pandemia Covid-19), e a organização da final da Liga dos Campeões daquele ano em Lisboa, a qual se veio a concretizar com um épico e memorável confronto entre as duas maiores equipas de Madrid. Em ambos os casos, as memórias que retenho dos contactos com UEFA são de um enorme sentimento de desilusão e de abuso.

No primeiro caso, as contrapartidas exigidas para a organização de apenas 3 a 4 jogos aleatórios do Europeu 2020 era um robusto e denso pacote de cláusulas leoninas em favor da UEFA que transferiam para o Município um grande número dos riscos da organização, a obrigatoriedade de vários investimentos em infraestruturas, e a necessidade de se assegurar um extenso conjunto de exceções legais junto das várias autoridades competentes, incluindo obviamente, a isenção de impostos. Num Portugal intervencionado pela Troika e com o Município em condições financeiras muito débeis, aquelas exigências eram desproporcionadas, inusitadas e não podiam ser moralmente aceites. Foi o que defendi junto dos meus pares. Felizmente, concordaram comigo e Lisboa não se candidatou. Não me arrependo.

No segundo caso, com o evento já confirmado no mandato anterior, a minha responsabilidade foi a de assegurar a coordenação dos compromissos assumidos pelo município no quadro da organização do evento e das demais competências legais que lhe estavam atribuídas. Foram meses de intenso trabalho de muitas dezenas de profissionais da cidade para servir os interesses de um evento e da sua pretensiosa entidade organizadora. Duas semanas antes da grande final, os principais pontos da cidade foram capturados por publicidade aos grandes patrocinadores da UEFA como se o espaço publico fosse detido por si. Até o Jantar de boas vindas às equipas e aos patrocinadores teve de ser assegurado e pago pelo Município e munícipes de Lisboa. No meio, ainda tentei negociar com a UEFA algumas contrapartidas em favor dos clubes de futebol amadores da cidade. Afinal, pensei, num evento de escala planetária que gera muitos milhões de euros deveria haver também alguma responsabilidade social corporativa. Mas não! O que consegui foi apenas a reinstalação num clube de Lisboa de um relvado artificial que a UEFA tinha adquirido para realizar iniciativas de promoção comercial numa “Fan Zone” instalada na Praça do Comércio. Mas o pior foi a gestão dos direitos de transmissão na via pública. Com todas as estimativas a apontar para que se deslocassem a Lisboa entre 130 mil a 150 mil madrilenos, mais do dobro da limitação do Estádio da Luz, a UEFA não queria autorizar a transmissão do jogo em ecrãs gigantes na cidade para permitir concentrar e controlar aquele enorme afluxo de gente que, obviamente, iria querer ver o jogo (a bem, ou a mal). Tudo porque os direitos de transmissão eram seus! Quanto aos mais que prováveis distúrbios na cidade seriam um problema do Município. Depois de um denso e intenso confronto de argumentos, apenas no início da tarde do próprio dia do jogo tivemos autorização para o fazer!

A final e a organização, disseram, foi um sucesso. Mais um motivo de orgulho para Portugal e para Lisboa. Pessoalmente, também fiquei muito orgulhoso da competência e qualidade do trabalho das equipas com quem trabalhei. Mas nos dias seguintes questionei-me repetidamente. Terá mesmo valido a pena?

A UEFA tem como lema “We care about football” mas também poderia ser “We care about money”. O futebol amador e a formação pouco podem contar com a UEFA. Apesar da sua imensa riqueza, são as famílias e as autarquias que continuam a financiar os clubes não profissionais e a alimentar a prática por uma modalidade que move paixões à escala planetária, mas também sustenta uma indústria de biliões fechada, corporativa e focada num objetivo cada vez mais visível e pronunciado. Gerar cada vez mais receitas.

Portugal acaba de anunciar a candidatura à organização conjunta com Espanha para a organização mundial de futebol de 2030. É uma candidatura com francas hipóteses de sucesso, até porque apenas se conhece um outro concorrente. Mas também por isso, Portugal deverá tentar resistir a aceitar as exigências que não sejam ética e fundamentadamente razoáveis (neste caso da FIFA). Se o fizer estará a ajudar a alimentar um ecossistema parasita que não se importa de crescer a qualquer custo. E isso não é Smart.

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