Opinião

Autárquicas: Vamos à Análise (V): Odivelas, Funchal, Porto Santo, Ponta Delgada, Santarém e Faro

Tiago Mendonça


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Odivelas

O PS parte com uma maioria absoluta consolidada (2013 e 2017) e com um aumento substancial de votos entre 2013 e 2017. Hugo Martins é o recandidato e dispõe de todas as condições para revalidar a maioria absoluta. O candidato do PSD é Marco Pina, que considero ser um bom quadro, com conhecimento local e um trajeto naquele concelho além da exposição mediática que lhe advém do comentário futebolístico na condição de ex-árbitro. Creio que segurará os três vereadores, mas num cenário de crescimento político à direita do PSD será difícil algo mais. Se o PS voltar a eleger 6, sobram dois. O PCP, passou de 3 para 2 entre 2013 e 2017 e julgo que corre o sério risco de ver o seu pecúlio reduzido a um vereador único já que o Chega com metade dos votos de Ventura nas presidenciais (ou até menos) elege um vereador. Apostaria num cenário de 6-3-1-1.

Funchal

Momento para espreitarmos as ilhas. Começando pelo município do Funchal, o Partido Socialista aparece em sondagem recente com os mesmos 42% conquistados em 2017 – cujo líder (Paulo Cafôfo) tinha, diga-se, mais dimensão política que o atual presidente de câmara (desde 2019) – Miguel Gouveia. O PSD, liderado por Pedro Calado, surge com 38% nessa sondagem (Diario de Notícias da Madeira) ou seja mais 6% do que o obtido em 2017. Porém, o PSD corre em coligação com o CDS, que tinha obtido 8.59% nas últimas eleições, o que quer dizer que está tudo mais ou menos na mesma. Será renhido, é um dos bastiões que podem mudar de cor política. E é uma câmara muito significativa. Será um dos poucos sítios onde o PSD poderá cantar vitória (com significado político nacional) roubando o município aos socialistas. Vai depender muito da campanha eleitoral e temos que acrescentar à dinâmica nacional – favorável aos socialistas – a dinâmica regional – favorável à coligação PSD/CDS. Os 11 vereadores dividem-se entre a coligação encabeçada pelo PS e a coligação encabeçada pelo PSD numa proporção de 6-5, pelo que quem ganhar governa com maioria absoluta. O PS é favorito mas...

Porto Santo

Uma das disputas eleitorais que acompanho com mais cuidado. Os resultados são sempre super renhidos, com a liderança da câmara a mudar várias vezes de mãos. Em 2017 o PSD recuperou o município ao PS ganhando com 32 votos de diferença. Elegeu 2 vereadores contra 2 dos socialistas e 1 de uma coligação de independentes. Mas em 2009, o PSD tinha eleito 4 vereadores e tinha conseguido 69% contra 23% do PS. E vinte anos antes, só tinha ganho por sete votos... enfim, a democracia a funcionar, totalmente imprevisível o desfecho. O presidente de câmara não se recandidata e anunciou o fim da sua carreira política. Mais uma malagueta para este caldo. Também estão em jogo listas independentes. O PSD não pode perder nenhuma câmara para o PS para tentar um resultado ligeiramente acima do horrível no plano nacional. É vital ganhar este município que sendo pequeno é bastante simbólico. Veremos.

Ponta Delgada

O PSD ganhou a autarquia em 2013 e aumentou, em 2017, a diferença para o PS, em votos e em percentagem. Dispõe de maioria absoluta na Câmara Municipal (5-4 em vereadores). Porém, o candidato já não é, obviamente, Bolieiro, que lidera agora o executivo regional. Poderá existir um cartão amarelo ao governo regional? Ou ainda existe estado de graça? Conseguirá Nascimento Cabral manter Ponta Delgada para os laranjas? O PSD não pode arriscar uma derrota aqui. André Ventura conseguiu 2.375 votos nas presidenciais. Uma votação desse género em autárquicas valeria provavelmente um vereador – o que poderia, pelo menos, retirar a maioria absoluta ao PSD e obrigar a uma coligação na governação da autarquia. Mais certa a entrada do Chega no Parlamento Municipal onde a maioria do PSD fica também muito complicada.

Santarém

O PSD surge como o favorito à reconquista de Santarém mantendo a aposta no presidente de câmara Ricardo Gonçalves que terá como principal adversário Manuel Afonso do Partido Socialista. O PSD dispõe de maioria absoluta, mas de uma vantagem de apenas 2.500 votos em face do PS. Não me parece que o PCP consiga voltar a eleger um vereador em Santarém, mas Ventura, em presidenciais, teve um resultadão, chegando perto dos 16% com quase 4.000 votos. Penso que existe uma real possibilidade do Chega eleger um vereador o que significaria que o PSD perderia a maioria absoluta propiciando mais uma coligação entre o PSD e o Chega.

Faro

As últimas duas eleições em Faro foram disputadas, com o PSD a ganhar em 2013 por menos de 400 votos em face do Partido Socialista e em 2017 a reforçar a posição com 1.600 votos de vantagem e a maioria absoluta conquistada. Rogério Bacalhau é o recandidato e parte como o grande favorito numa coligação reforçada pela Iniciativa Liberal. Nota para o facto de nunca nenhum partido ou coligação ter ganho aqui três vezes seguidas. Se o Chega se aproximar do resultado de Ventura em presidenciais pode conseguir um vereador. Com o PCP em queda (o que favorece o PS) e o Chega em alta (o que, à partida, prejudica o PSD) a vitória está longe de estar no papo – e só está mais segura porque a IL não apresentou candidatura própria. Eu apostaria numa vitória tangencial do PSD mas com perda de maioria absoluta e necessidade de coligação com o Chega.

Nota Final: Percebemos por esta amostragem que em muitos pontos do país o PSD precisará do Chega para governar. Insisto numa ideia: não existirá, nos próximos anos, governo em Portugal, em alternativa ao PS, que não se tenha de sentar com o Chega. Existiu uma reconfiguração do espaço político à direita que envolve a participação do Chega na formação de alternativas aos projetos de poder do Partido Socialista. Podemos gostar muito, pouco ou assim-assim. É indiferente. Se gostarmos menos comemos só as batatinhas. Mas é um facto.

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