Opinião

Autárquicas: Vamos à Análise (III)

Tiago Mendonça


Almada

Depois de 41 anos de domínio comunista, por escassas 5 centenas de votos, o Partido Socialista roubou a câmara municipal ao PCP. Inês de Medeiros, é a incumbente e lidera as sondagens. Mesmo apresentando os comunistas um “dinossauro”, Maria das Dores Meira – histórica autarca de Setúbal – penso que a conjuntura nacional de força para o PS e de queda do PCP impedirá o regresso dos comunistas ao poder em Almada. Julgo que é dos concelhos mais importantes para a avaliação da noite eleitoral porque caso o PCP consiga a recuperação, além de voltar a “mandar” num bastião importante, poderia, pelo menos, retardar a perda de força no poder local. No mais o PSD vai com Nuno Matias e deve eleger um vereador e Joana Mortágua também deve ser eleita. Sendo uma Câmara Municipal de 11 é quase impossível que alguém chegue à maioria absoluta.

Alcácer do Sal

Continuando a sul do Tejo, um pequeno concelho (votam pouco mais que 6.000 pessoas) e uma câmara municipal de apenas sete elementos. Ganhou (ainda?) o PCP em 2017, com Vítor Proença a ser recandidato para um último mandato. Clarisse Campos é a aposta do Partido Socialista para roubar a Câmara Municipal aos comunistas. São cerca de 350 votos de distância, mas num universo eleitoral tão pequeno representam mais de 5%. Se o PCP não segurar será mesmo o descalabro eleitoral. É um bom medidor para que o se pode passar no resto da noite eleitoral no que respeita ao equilíbrio de poder entre o Partido Socialista e os Comunistas. Aqui mais ninguém elege vereadores, quem ganhar fica com 4, o segundo classificado fica com 3. Na Assembleia Municipal, o PSD deve conseguir eleger e o Bloco também. Mais uma disputa interessante.

Seixal

Um dos combates que aguardo com mais expetativa. O PCP parte na frente, mas, atenção, o candidato mudou – é o atual vice-presidente de câmara municipal. Uma aposta na continuidade mas...O Partido Socialista, ficou 5% atrás e volta a apostar em Eduardo Rodrigues para recuperar os cerca de 3.000 votos de que o PS precisa para ganhar a Câmara Municipal. É uma luta muito interessante e um ótimo barómetro. Neste momento, o PCP dispõe além do Presidente de Câmara de mais 4 vereadores, ficando apenas a um da maioria absoluta. O PS tem 4, o PSD 1 e o BE outro. Mas atenção: André Ventura teve aqui mais votos que Ana Gomes. Metade dos votos chegam para eleger um vereador. Penso que irá mesmo eleger e que o vencedor disporá apenas de 4 vereadores – apostaria na vitória do Partido Socialista. Por isso, antevejo como cenário mais provável – 4 (PS), 4 (PCP), 1 (PSD), 1 (BE), 1 (Chega). Que gerigonça tão estranha será necessária para garantir governabilidade!

Évora

Mais um reduto comunista, mas aqui o PCP tem uma margem superior sobre o PS, partindo, claramente, na pole position. O super dinossauro comunista, Pinto de Sá, tenta o derradeiro mandato em Évora depois de 5 seguidos em Montemor-o-Novo. Do outro lado, pelo Partido Socialista, José Calixto, que liderava a autarquia de Reguengos. Poderá o PS aproximar-se e mesmo ganhando o PCP, passarmos de 4-2 na Câmara para 3-3 com o terceiro partido a ser decisivo? E quem será o terceiro partido? Os resultados em Évora têm sido super estáveis com o PSD consecutivamente a eleger um vereador. Mas para termos ideia do fenómeno Ventura, teve mais votos nas presidenciais que o PSD nas autárquicas... a seguir com atenção.

Portalegre

Confesso que é das batalhas autárquicas que anseio mais. Tem todos os ingredientes para uma noite bem passada. A incumbente é Maria Adelaide Teixeira que lidera um movimento independente. Ganhou, com 300 votos de diferença para o Partido Socialista, mas que foram o suficiente para eleger três vereadores contra apenas dois dos socialistas. Mas a distância é tão curta, que é impossível prever um vencedor. Mais, há quatro anos, o PS ganhou para a Assembleia Municipal por 98 votos. Pode ser uma conquista gigante do PS e mais uma a contabilizar no fosso para o PSD no plano municipal. O PCP está em terceiro lugar com um só vereador e sendo provável que o mantenha gostava de chamar a atenção para o facto do candidato presidencial do PCP João Ferreira ter tido...389 votos em Portalegre. André Ventura teve quase cinco vezes mais. É uma câmara municipal onde antevejo que o Chega eleja um vereador. Teoricamente, roubaria ao PSD (4.º classificado nas últimas eleições a 600 votos do PCP) mas o PSD apresenta como candidata a icónica Fermelinda Carvalho. Para quem não a conhece governava o município ao lado (Arronches) e ganhou com...62,25% dos votos. Para um distrito como Portalegre é incrível. Aliás, pelo que se ouve nos bastidores, o PSD até acredita que vai aqui conseguir um resultado com outro relevo. Penso que a eleição do vereador do PCP não está assim tão segura. Muito pelo contrário. O Chega também vai retirar muitos votos ao movimento independente e penso que até poderá “ajudar” o PS a ganhar a Câmara Municipal. É um município onde tudo pode mesmo suceder. Até pode acontecer um cenário de 2 vereadores para os independentes, 2 para o PS, 1 para o PSD, 1 para o PCP e um para o Chega. Julgo que o PCP vai também aqui ser muito penalizado. E o PS pode conquistar mais uma câmara. Insisto numa ideia já aqui referida: quem pensar que o PSD porque apontou para mínimos olímpicos vai conseguir reduzir a diferença para o PS acho que pode tirar o cavalinho da chuva.

Mourão

Voltemos ao distrito de Évora, mais precisamente a Mourão. Concelho pequenino, 1.631 votantes em 2.252 inscritos nas últimas eleições. Vereadores repartidos entre PS e PSD, com vantagem de 3-2 para os socialistas que assim governam com maioria absoluta num concelho em que têm mais 150 votos que os segundos. Só que Ventura teve em Mourão...33,64% dos votos! 333, para ser mais preciso, menos 70 que Marcelo Rebelo de Sousa. E na freguesia de Mourão, Ventura até ganhou! Quem lidera a candidatura é a cozinheira Fátima Marques Vidigal. E cá para mim vai dar sopa nos partidos que habitualmente lideram neste pequeno concelho. A maioria absoluta vai pelo ralo abaixo e não me admirava que que o PSD fosse relegado para a sobremesa, não porque anteveja um resultado doce mas porque vem em terceiro lugar.

Moura

No Distrito de Beja encontramos o concelho de Moura que está nas bocas do país, porque André Ventura é candidato à Assembleia Municipal. Neste concelho, Ventura sacou em presidenciais 1.430 votos. Pouco? 30,85%. Pouco menos que 400 em relação a Marcelo Rebelo de Sousa. E ganhou em duas freguesias. Se repetir a graça elege um vereador e uns três deputados municipais. Penso que chegará a estes números. Admito que roube o terceiro vereador do PCP, entrando Moura num cenário de 4 (PS), 2 (PCP), 1 (Chega). Mas com Ventura na corrida, nunca se sabe se não existe um resultado para o Chega com outro relevo. E aqui o PSD vai ser ultrapassado.

Duas semanas passadas deste exercício e eu ressalvaria algumas notas dominantes:

- O PS pode aumentar muito o número de mandatos e câmaras municipais, não porque as vá buscar ao PSD, mas porque tem terreno aberto de conquista aos comunistas que estão em clara erosão. Se conseguir que algumas com peso nacional (como Loures ou Seixal) passem de vermelho a rosa prepara-se para um resultado esmagador. E a 26 de Setembro teremos (espera-se) imunidade de grupo e o regresso à “liberdade” ...e isso conta. Mas em Política um mês e meio é muito tempo. Cabrita que o diga.

- O efeito André Ventura. O número de vereadores, deputados municipais, membros de assembleia de freguesia vai ser colossal. A alteração na aritmética em cada município vai ser muito relevante. Do ponto de vista autárquico, o Chega vai se instalar como o quarto partido, e vai começar a morder os calcanhares a comunistas e ao PSD.

- Uma terceira nota é a dificuldade dos dois principais partidos apresentarem candidatos com algum relevo. Normalmente é o tipo da concelhia, é o presidente da câmara ao lado que chegou ao fim dos 3 mandatos.

Veremos! Até para a semana!

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