Opinião

Autárquicas 2021 – Vamos à análise? (I)

Tiago Mendonça


Aproximam-se as eleições que mais me fascinam. As autárquicas. Julgo que se tivesse que escolher um cargo político para desempenhar entre todos os possíveis seria o de presidente de junta de freguesia ou de uma câmara municipal de pequena dimensão. Acho que a proximidade entre eleitos e eleitores, a perceção de que o trabalho desenvolvido hoje pode ter um impacto amanhã – ao contrário do que sucede no governo – e as dinâmicas muito próprias de cada lugar, povoação, freguesia, concelho tornam o jogo autárquico mais imprevisível e, por isso, politicamente interessante. E depois os candidatos não são o tipo famoso que comenta na televisão, é o farmacêutico, o filho do Sr. do Café Central, a professora primária.

Os movimentos independentes, permitidos apenas, no plano constitucional, em 1997, trouxeram uma nova dinâmica a este tipo de eleições e, na minha perspetiva, um upgrade na disputa política nas freguesias e nos concelhos. Os partidos, na maior parte dos casos, continuam a meter pregos no seu próprio caixão, limitando-se a apresentar como alternativa o maior cacique da zona, o tipo que chegou a presidente de seção porque depositou mais fichas de militante na sede nacional ou porque comprou o presidente da juventude partidária lá do burgo. Numa primeira fase o lamento ia para o facto de os partidos não apresentarem as melhores soluções possíveis no contexto do concelho em que se inserem, agora já só pedia que apresentassem os melhores militantes disponíveis e não umas figuras meio tolas que percebem tanto de política e de representação como eu das quotas leiteiras no Uzbequistão.

Claro que aqui e ali, umas vezes por princípio outras por necessidade, exceções confirmam a regra. A perda do monopólio das candidaturas autárquicas pelos partidos políticos obrigou a que eles próprios se abrissem ao exterior e tivessem uma maior preocupação de recrutamento fora das suas fileiras o que faz com que as listas apresentadas sejam significativamente melhores do que há uns anos atrás, mesmo quando os cabeças de lista são fracotes.

Estas eleições vão ser muito interessantes seja no plano estritamente local seja no plano nacional. No jogo do país, a curiosidade de perceber até onde vai o Chega! – que tem a hipótese, quase a certeza – de se tornar o quarto partido autárquico de Portugal. O que vai fazer com a força de dezenas de deputados municipais e vários vereadores fica para depois.

A Iniciativa Liberal tem igualmente um bom teste, tendo a oportunidade de lançar novos quadros de enorme qualidade. Estas eleições vão testar a força dos liberais também noutros concelhos que não Lisboa e Porto o que, fazendo o transfer para as legislativas permitirá perceber possibilidades de futura eleição de deputados fora desses círculos eleitorais.

Outra dúvida é como é que vão resistir o CDS e o PSD, cujo sentimento de fim de ciclo é indisfarçável. O CDS, penso que tem mais hipóteses de não sair na fotografia como o grande derrotado porque, na verdade, é um partido com pouca expressão autárquica no que respeita a lideranças de câmaras municipais. É difícil, portanto, ficar pior. O PSD colocou as fasquias baixíssimas e a maioria dos comentadores antevê que pior que 2017 é impossível. Permitam-me contrariar. Acho que o PSD pode ainda descer mais. Mas o fim de ciclo que se sente não é apenas para as suas lideranças (o que não significa fim da carreira política muito em especial para o Francisco que é um bom quadro da política portuguesa) mas para os próprios partidos.

A nossa terceira república está em mutação e esquerda e direita em reconfiguração. Verdade seja dita, a Esquerda percebeu isso mais cedo e, o Bloco de Esquerda, hoje já ultrapassado o período da adolescência, é um partido relevante no contexto nacional e que tem contribuído para o facto da esquerda estar no governo muito mais vezes que a Direita. Penso que o CDS terá muita dificuldade em segurar-se como partido não residual nesta fase da nossa vida política e o PSD está também em fim de ciclo a menos que inverta muito rapidamente o seu trilho – e como tenho insistido aqui a única solução é mesmo o regresso do Dr. Pedro Passos Coelho.

No espaço político à esquerda, tenho muita curiosidade em perceber se a debandada do PCP vai continuar. Parece claro que no espetro conservador, o PCP perde todos os dias para o Chega – o que em certa medida comprova o esbatimento do binómio esquerda-direita, pelo menos por cá. O que é certo e sabido é que no dia em que o PCP perder a sua força no poder local desaparecerá ou ficará, pelo menos, reduzido a insignificante representação. O Bloco de Esquerda está na mó de baixo desde que saltou fora da Geringonça. As presidenciais correram muito mal a Marisa Matias (e só não foi pior porque capitalizou o batom vermelho...) e as expetativas autárquicas são baixas pelo que será difícil retirar uma leitura política nacional para o partido de Catarina Martins.

O Partido Socialista ganhará as eleições com muita naturalidade. E não me parece que sejam as últimas, nem as penúltimas. É hoje o grande partido do poder local, comendo câmaras ao PCP e não vendo, a norte, a oposição que o PSD poderia e deveria fazer. Porém, se perder dois ou três bastiões fundamentais pode ser mesmo o fim do princípio do estado de graça socialista. A política são ciclos e o PS perderá eleições um dia destes. Quem as vai, verdadeiramente, ganhar, é a dúvida.

São, portanto, várias e boas as razões para dedicarmos alguma atenção às autárquicas de 2021. Pensei que poderia ser interessante (para mim e para as duas pessoas que leem estas crónicas) debruçar-me sobre algumas das disputas que considero, por uma razão ou outra, mais interessantes e, provavelmente, mais reveladoras do que poderá vir a ser o day after das autárquicas. Cheguei a um leque de 48 municípios que acho que vão ser decisivos nestas eleições. Mas 48 é muita fruta! Julgo que passaria de dois leitores para um (ou seja, nem a minha mãe leria).

Reduzi para 31 municípios que correspondem a 10% do número total de autarquias que existem no nosso país. E mesmo assim a empreitada é grande. Deixo-vos abaixo os 31 concelhos a que dedicarei mais atenção nas próximas semanas e a razão fundamental pela qual fazem parte desta seleção.

1. Lisboa – Capital do País; fundamental na leitura nacional.

2. Porto – fundamental na leitura nacional + liderança independente.

3. Cascais – Câmara mais importante PSD + maioria absoluta em (pouco!) risco?

4. Oeiras – Câmara Importante + Liderança independente

5. Odivelas – Câmara importante + maioria absoluta (PS) em risco?

6. Loures – Possibilidade de troca de liderança PCP – PS + resultado Chega

7. Sintra – maioria absoluta do PS em risco?

8. Porto Santo – PSD “roubou” autarquia ao PS por 30 votos. Mantém?

9. Funchal – Câmara Importante + maioria absoluta (PS) em risco?

10. Ponta Delgada – Câmara Importante + PSD resiste?

11. Viseu – regresso de um dinossauro + maioria absoluta (pouco!) em risco?

12. Castro Daire – PSD “roubou” ao PS. Mantém?

13. Oliveira do Bairro – reduto do CDS. Mantém?

14. Braga – Câmara importante + maioria absoluta (pouco!) em risco?

15. Guimarães – Câmara importante + maioria absoluta em risco?

16. Celorico da Beira – PSD “roubou” ao PS. Mantém?

17. Manteigas – PS “roubou” ao PSD. PSD consegue resgatar?

18. Peniche – Câmara de enorme volatilidade;

19. Santarém – maioria absoluta (PSD) em risco?

20. Portalegre – Capital de distrito liderada por movimento independente.

21. Coimbra – Câmara importante – que governabilidade?

22. Figueira da Foz – Pedro Santana Lopes reconquista?

23. Almada – PS (outra vez) ou PCP recupera?

24. Alcácer do Sal – PCP mantém?

25. Seixal – PCP mantém?

26. Évora – PCP mantém? Se sim, segura maioria absoluta?

27. Mourão – PS – maioria absoluta em (muito!) risco + efeito André Ventura.

28. Moura – efeito André Ventura – candidato à AM.

29. Faro – câmara importante + PSD mantém?

30. Murça – PSD “roubou” ao PS: mantém?

31. Mirandela – PS “roubou” ao PSD: mantém?

Penso que é aqui que os nossos olhos devem repousar na grande noite das eleições. Nós olhamos, quase sempre, para Lisboa e Porto e pouco mais, mas na contabilidade real, será muito importante perceber, sobretudo a norte, onde o PSD conseguiu roubar algumas câmaras ao PS, se as consegue manter e, inversamente, se as que perdeu por pouco para o PS as consegue resgatar. É aqui que se joga o futuro próximo de Rui Rio. Depois, a sul do Tejo, que capacidade terá o PCP de resistir. Na margem sul, são muitos os bastiões em perigo para o PS além de Loures um dos maiores municípios do país que está em grande risco de perda. E, além disso, o PCP será fortemente atacado no Alentejo mais profundo pelo Chega o que poderá levar a perda de freguesias, talvez concelhos e, pelo menos, maiorias e condições de governabilidade. Antevejo enormes dificuldades para o PCP nestas eleições. Um bom teste nos Açores ao novo governo de Direita, um momento para perceber realmente como está a Madeira (acho que ninguém sabe), municípios sempre surpreendentes como Peniche, o efeito Santana Lopes na Figueira da Foz e algumas câmaras importantes em clara disputa, como Évora e Faro, em ambos os casos com o PS como desafiador.

Enfim, a festa da democracia!

Até para a semana!

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