Opinião

Autárquicas 2021: o que 1989 nos ensina

Ascenso Simões


O Partido Socialista ganhou as eleições autárquicas. Metade dos municípios portugueses são presididos por candidatos do PS, apoiados pelo PS ou por movimentos de independentes que são o PS2.

Porém, a sensação que o país tem é de uma pesada derrota. Isso resulta da surpresa em Lisboa e da forma como a contagem foi feita.

O que querem estes resultados dizer? Para muitos, poderiam indiciar uma mudança de ciclo, um certo cansaço com o PS. Mas isso é leviandade analítica.

Quem ganhou em Lisboa, e por largo, foi a esquerda. A bipolarização, com toda a direita somada, levava-nos a um resultado muito semelhante ao verificado nas legislativas de 2015.

A partir de hoje voltamos a ter dois protagonistas que caminharão para 2023. Costa, a quem a derrota eleitoral em Lisboa diz muito, vai voltar a mobilizar o PS para uma nova vitória eleitoral; o PSD, que não gosta de Rio mas a quem a sorte tem ajudado, vai fazer-lhe o que fez a Manuela Ferreira Leite.

Importa regressar a 1989 para podermos avaliar o impacto de autárquicas em legislativas seguintes.

Nessa longínquas eleições, o PS fazia eleger Jorge Sampaio em Lisboa e Fernando Gomes no Porto. Os socialistas ganhavam a presidência da Associação Nacional de Municípios Portugueses. Passados dois anos, em 1991, Cavaco Silva tinha a maioria absoluta mais ampla alguma vez verificada em Portugal.

Costa tem, no tempo de hoje, mais vantagem que Cavaco. Tudo porque se a esquerda da esquerda lhe fizer a vida negra, ele saberá apelar ao voto útil, coisa que em Lisboa ninguém fez, e consegui-lo-á.

Mas há mais razões. Rio, Silvano e Adão Silva, somados ao alcaide de Ovar (é de Ovar), são tudo o que um Portugal do século XXI não gostará de ver sentado nos destinos da nação.

Quer isto dizer que o PS pode estar descansado? De todo! Há vitórias extraordinárias, como em Chaves e Vila Real, em Valença ou Espinho, em Monchique e Vila Real de Santo António, e são estas vitórias que nos dizem que um PS destemido e focado pode ir longe.

Os próximos dois anos são também importantes em muitas autarquias socialistas. Dezenas de presidentes entraram no último mandato, e é esta transição que tem de ser ponderada. Há uma mão de autarcas que podem ser membros do governo; há outra mão que podem ser deputados, mas os lugares não dão para todos e o futuro de quem foi presidente é sempre um tempo de depressão.

Saibamos reorganizar o Governo, mobilizar o PS, ganhar com larga vantagem 2023 e antecipar 2025.

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